Mulheres inspiradoras: Maya Angelou

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A falta de mulheres inspiradoras, ícones ou líderes, principalmente no mundo dos negócios, é uma opinião alarmada com frequência. Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, transformou esse assunto em um dos pilares de seu livro, o Faça Acontecer (Lean In), onde fala sobre o lado feminino do business.

Se por um lado a constatação dá uma boa chacoalhada nas bases e nos deixa ávidas por mudanças, por outro, ela pode ressonar desanimador a alguns ouvidos. O importante é manter em mente que, na verdade, essas mulheres-ícones já existem e tudo que precisam é das luzes dos holofotes (ou da nossa total atenção). Elas podem ser sua mãe, uma vizinha, uma professora do colegial ou uma criadoras de cartões de aniversário – como é o caso de Maya Angelou.

Na verdade, Maya, uma das escritoras mais bem-conceituadas do mundo, já foi cozinheira, condutora de carros, garçonete, cantora, dançarina, professora, editora, atriz e militante pelos direitos civis. Hoje, aos 85 anos, dá aulas na Wake Forest University. Cedeu à Harvard Business Review, edição de maio, uma das entrevistas mais lúcidas e inspiradoras que já li. Abaixo, a versão traduzida desse texto – tão provocador e cheios de bons conselhos – sobre feminilidade, trabalho, criação e lições de vida.


Seu último livro é sobre sua mãe. O que você aprendeu com ela?

A criar coragem. E ela me ensinou isso sendo corajosa ela mesma. Ninguém nasce com o dom da coragem. As pessoas a desenvolvem ao longo da vida praticando pequenos atos corajosos. Se alguém quiser levantar um saco de arroz de 50 quilos, o ideal é que comece levantando um de 1 quilo, depois outro de 5 quilos… Até estar forte o suficiente para levantar o de 50 quilos. Assim que funciona a coragem. Você primeiro precisa se dedicar a ações menores que exigem esforço mental e espiritual.

Sua mãe e sua avó foram empresárias. O que elas te ensinaram sobre uma boa administração?

Que é sábio ser justo e é tolo mentir. Isso não significa contar tudo que você sabe para todos. Apenas garanta que o que você disser seja verdadeiro. Existem pessoas que falam que sou brutalmente honesta, mas para isso não preciso ser bruta. Podemos dizer a verdade de forma que a outra pessoa a receba positivamente.

Você acata a opinião de quais críticos?

Cheguei a uma certa idade em que muitos dos críticos que respeito já não estão mais aqui. Mas aprendi a escutar os jovens: meus alunos na Wake Forest ou outros que encontro ao redor do mundo. Eles reiteram minhas ideias com mais frequência do que as contrariam. Com eles, descubro que o que eu achava que era verdadeiro ainda é verdadeiro.

Os leitores da HBR sempre ouvem sobre a importância de se contar boas histórias no mundo dos negócios. Como alguém constrói uma história convincente?

Terence [o dramaturgo romano] disse: “sou humano. Nada humano pode ser estranho para mim”. Se você sabe e aceita isso, então você pode contar uma história e criar personagens com que as pessoas vão se identificar. Jack e Jill subiram em um morro, um caiu e o outro foi tropeçando atrás. O leitor vai pensar: “ah, eu já caí, reconheço essa situação”, não importa se isso aconteceu na Holanda ou Kowloon. Seres humanos deveriam compreender o que outros seres humanos sentem, não importa quem eles são, que língua falam, de onde vêm, a idade que têm ou o tempo em que vivem. Se você desenvolver a arte de enxergar as pessoas mais como semelhantes do que estranhos, então todas as histórias são compreensíveis e plausíveis.

De todas as suas profissões, qual foi a mais desafiadora? 

Escrever poesias. Quando chego perto de dizer o que eu quero, fico tão feliz. Nem que sejam apenas seis linhas, eu até abro champanhe. Mas até chegar nisso, meu Deus, aquelas frases me incomodam como um mosquito zumbindo na orelha.

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Quando você estava no começo da sua carreira, já imaginava quem viria a ser?

Não, mas também nunca pensei que não chegaria onde cheguei. Logo cedo percebi que se uma pessoa pudesse fazer algo, eu também poderia, se me dedicasse. E uma coisa levou a outra. Se não tivesse estudado latim na escola, não acharia fácil compreender a estrutura das línguas. Se não tivesse aprendido a dançar, talvez nunca teria escutado música da mesma forma, nem composto algo. Também tão cedo entendi que nem tudo que eu fizesse seria uma obra-prima, mas que eu faria o melhor possível. Escutei minha voz interior e me dei a coragem de me aventurar pelo desconhecido. E tudo ao seu tempo.

Conte sobre seu processo de escrever. Quando e onde você trabalha melhor?

Apesar de ter uma casa grande, eu mantenho um quarto de hotel para onde vou todos os dias às 6h30 da manhã. Levo um livro de sinônimos, uma Bíblia, um bloco de notas e canetas. Saio às 13h e, como nunca uso a cama, recuso o serviço de limpeza. Depois de alguns meses, os funcionários do hotel me deixam um recado: “por favor, Dra. Angelou, nos deixe ao menos trocar o lençol da cama. Achamos que ele pode estar mofado”. Quando vou para lá, sinto como se estivesse na minha própria casa. Desconecto do mundo de alguma forma.

Como você lida com bloqueio criativo?

Não chamo isso de bloqueio. Tenho cuidado com as palavras que falo, pois sei que meu cérebro vai lembrá-las e jogá-las na minha cara depois. Deixo um baralho no hotel para, às vezes, jogar paciência. É um exercício para a minha “mente pequena”. Peguei essa frase da minha avó, que costumava dizer: “nossa, isso não estava nem na minha mente pequena”. Realmente acredito que há uma mente pequena e uma mente grande. Se der algo para logo ocupar a pequena, posso começar a usar a grande o quanto antes.

Você começou a escrever já mais velha e desde então foi muito produtiva. Qual o segredo para se manter assim e de onde tira sua energia?

Bem, energia é algo que todos nós somos. Está nessa linha de telefone que me conecta a você. Está em todos os lugares. E eu amo o que faço, então não me incomodo com o trabalho, com a dificuldade. E quando há resultados, hmmm, meu Deus, é uma benção.

Você conheceu pessoalmente Martin Luther King Jr., Malcom X, Bill Clinton e Barack Obama. O que acha que faz alguém ser um bom líder?

Um líder deve ver grandeza nas outras pessoas. Você não será um bom líder se tudo que enxergar for você mesmo. Apenas semelhantes se tornam amigos. Aqueles que enxergam outras pessoas em sua totalidade e as concede respeito e direitos iguais, garantem também aliados.

Falando em Obama, como você avalia o progresso das minorias nos campos profissionais?

Bem, celebramos seu segundo mandato, algo que nem todos presidentes brancos conquistaram. Então acho que nosso país é mais saudável do que pensamos. Pessoas retrógradas ainda são ouvidas. Mas quem importa mesmo são aquelas que marcham para as urnas. 

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Quem é seu mentor profissional mais importante?

Uma das minhas professoras do colegial em São Francisco, a senhorita Kirwin. Ela tinha 50 anos, acho, e usava um broche e saia de seda. Ela caminhava pelo corredor da classe chamando cada um dos alunos pelo sobrenome. Foi ela quem me ensinou a ensinar. Ela adorava mostrar e dividir tudo que sabia. E ensino meus alunos na universidade da mesma forma. Raramente ela perguntava sobre algo publicado em livros. Normalmente, se referia a revistas e jornais. “Vocês viram um artigo na revista Time sobre mineração na Virgínia? Fale sobre isso, Beard. Comente, Johnson.” Você nunca podia levantar a mão na sala; se o fizesse, ela não te chamaria para responder. Ela me impressionava. Depois de adulta, retornei à escola para falar com ela. Esperei todos alunos saírem, entrei na sala e disse: “Bom dia, senhorita Kirwin. Você não se lembra de mim, mas eu fui uma de suas alunas”. E ela me disse: “sim, você é a Johnson. Você sentava logo ali”. Sua pessoa teve um grande impacto sobre mim.

E você, foi mentora de quem?

Alguns deles são famosos, outros não. O que quero dizer é: estou sendo sua mentora nesse momento. Tudo que aprendi, tudo que fiz está à sua disposição enquanto falo com você. E de certa forma, você nunca se esquecerá de mim.

Pode acreditar, não me esquecerei. 

O que quero dizer é que você pode até se esquecer quando ou como você adquiriu certo conhecimento. Mas em algumas semanas, meses ou anos, você dirá algo baseado em tudo que conversamos.

Você foi mãe solteira. Quais conselhos daria para outras mães que passam pela mesma situação?

Esteja ciente das suas prioridades. Num primeiro momento, o mais importante parece manter um emprego para pagar as contas. Mas, na verdade, a prioridade é fazer com que seus filhos saibam o quanto eles são amados.

Há dez anos, você trabalhou com a Hallmark [empresa de cartões]. Quais desafios e surpresas que enfrentou nessa época? 

Primeiro, fiquei surpresa com algumas pessoas que ficaram decepcionadas comigo. Um poeta, desinformado, disse a um jornalista: “que pena que ela limitou sua arte a criar cartões”. Nessa mesma semana, uma senhora, da mesma idade que eu, se aproximou de mim para me contar que sua filha, de quem estava brigada há quatro anos, havia lhe mandado um dos meus cartões de Natal. “De noite, o levo para a escrivaninha do quarto. De manhã, o levo para a cozinha enquanto faço café. Quando vou à sala, ele vai comigo. Então muito obrigada”. Uma pessoa pode nunca ler poesia, mas pode encontrar conforto em um cartão. Será que algo pode ser melhor do que isso? Talvez, mas duvido. Um desafio de criar cartões é o fato de ter que escrever uma boa frase com poucas palavras. Um dos que mais tenho orgulho diz: “lamentações não apenas nos enfeiam como alertam os brutos de que há uma vítima por perto”.

Que elogio você mais gosta de receber?

Gosto quando as pessoas dizem que sou gentil. Significa que ainda estou aprendendo e que sou capaz de perdoar.

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