Onde estão nossas heroínas?

olga heroina

Pense em um grande herói. Se for homem, ele poderá ser dono de infinitas características, de valente a geek tímido, de cavalheiro a um bruto conquistador, alto ou baixo, gordo ou magro, rico ou pobre. Se for mulher, ela certamente vai assumir uma das únicas duas facetas disponíveis: a lady perfeita, que conquista seus objetivos através da sensualidade, ou a durona que não deixa ninguém cruzar o seu caminho. Como é que o sexo feminino, de onde vem pessoas tão complexas, ganham representantes unidimensionais? Para entender de onde surgirão novas e mais profundas imagens, falamos com a escritora Beatriz Del Picchia. Nos livros O Feminino e o Sagrado – Mulheres na Jornada do Herói e Mulheres na Jornada do Herói – Pequeno Guia de Viagem, a autora, ao lado de Cristina Balieiro, responde onde estão as mulheres no conceito mítico da jornada do herói.


Quais as diferenças entre a jornada do herói e da heroína?

Há duas principais. Primeiro, a jornada masculina costuma ser solitária: o grande herói sai de casa e, sozinho, vence o inimigo e salva o mundo. Já a jornada feminina geralmente é mais compartilhada. Nós lutamos as batalhas da vida cuidando das crianças e do cachorro, levando junto as amigas, acudindo a mãe, o ex-marido… Em vez de partir sozinha, nós seguimos quase em caravana, por assim dizer.

Segundo, nós nos deixamos levar mais pela intuição. Damos mais voltas, fazemos círculos, é uma jornada diferente da reta trajetória padrão masculina, até porque atendemos a mais pessoas ou áreas. Se perdemos em rapidez, ganhamos na riqueza da viagem.

Mas veja bem: estou falando da jornada arquetípica feminina conforme detectamos em nossa pesquisa. Claro que há mulheres que fazem jornadas masculinas, no clássico padrão focado do sistema, homens que fazem jornadas femininas, e gente que mescla ou alterna as duas.

Qual sua visão sobre as heroínas apresentadas em filmes, livros, quadrinhos e seriados?

A maioria é uma representação feminina que evoca ou a Marilyn Monroe ou a Margareth Tatcher. Quer dizer, variam entre A Princesa (derivadas: A Sexy, A Romântica, A Infantil, A Desajeitada, A Vítima, etc) ou A Herói Masculino (A Executiva, A Detetive durona, etc). Às vezes colocam ambas na mesma figura, que vira algo estranhíssimo como todo híbrido. São estereótipos que facilitam as vendas dos filmes e de outros produtos, fortalecendo a inércia de pensamento e de percepção de mundo. Mas aos poucos estão surgindo heroínas mais facetadas e sutis nessas mídias.

Além das comuns e unidimensionais cuja força vem da sensualidade, um outro tipo de heroína ganhou destaque: aquela empresária multitarefas, cuja imagem é a da “mulher atendendo ao telefone enquanto balança no colo uma criança chorando”. Como podemos aprofundar a imagem da heroína?

Bom, essa é uma super-heroína de almanaque, a Mulher Maravilha que interiorizou a jornada masculina e tenta ser o herói padrão, só que com mais responsabilidades e mantendo a aparência impecável! Ou seja, ainda hoje a mulher paga um preço absurdo por viver num sistema materialista, devorador e consumista. Somos vitimas e vilões dessa história, que continua acontecendo por várias razões: porque nós não queremos ou não sabemos como fazer diferente, por inexistência de opções onde habitamos, por não questionarmos nosso estilo de vida e valores, por falta de apoio logístico publico e familiar, por tudo isso e mais um pouco…

Em vez da gente se matar para sustentar esse modelo impossível, acho que seria melhor sermos heroínas para contesta-lo e tentar estabelecer novos paradigmas! Por exemplo, simplicidade voluntaria, economia solidária, escolhas conscientes, questionamento de padrões estéticos femininos, estruturas familiares e publicas mais inclusivas e flexíveis, etc .

Você participou do TedXdaLuz, onde disse que o mito do herói deve servir como espelho para a vida, pois ele é universal e está no coração de todos nós. Por que as mulheres têm dificuldade em se retratar como as heroínas?

Muitas vezes os oprimidos não se enxergam como heróis. Projetam no outro qualidades que tem em si sem as reconhecer. Sabe aquela frase “atrás de um grande homem há uma grande mulher”? Ela é escondida até de si mesma! Pela secular desvalorização social e baixa auto estima da imagem e dos padrões femininos, muitas mulheres são grandes opressoras de suas filhas e subordinadas, seus espelhos. Na medida em que a mulher valoriza a si mesma e as qualidades femininas, as heroínas vão surgindo, sendo vistas e retratadas pelas próprias companheiras.

Quem deveriam ser as nossas heroínas hoje e o que falta para elas alcançarem o destaque merecido?

Como reconhecer as heroínas? Bom, para começar, não as procurando em heróis masculinos com corpo de mulher. Para mim, tanto na escala doméstica como pública, as heroínas são as que defendem valores femininos. Valores como, por exemplo, a validação do sentimento e do afeto. Ou como a coerência entre o que a pessoa diz e o que faz na vida pessoal: nós mulheres valorizamos, e ainda bem, o que é intimo e familiar. Heroínas são íntegras consigo mesmas (com sua alma, diriam os antigos) a todo custo. Defendem, ou cuidam, ou procuram a inclusão do fraco, do perseguido, do discriminado, do loser – como são as próprias mulheres em regimes opressores. Enfim, acho que devemos procurar as heroínas naquelas que são portadoras das mudanças que queremos ver no mundo, como disse o Gandhi. E sejamos nós mesmas, cada vez mais, a mudança e a heroína de nossas vidas!

Talvez elas não recebam muito destaque na grande mídia, até porque os sistemas patriarcais se defendem. Mas nós podemos cuidar um pouco disso. Somos boas tanto no varejo, no trabalho de formiguinha, quanto no de elefante. Botamos a boca no trombone, na internet, no bairro, nas editoras, nas Assembleias. Há vários pontos de luz, faróis na neblina. Cada vez mais!

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