Mulheres inspiradoras: Barbara Soalheiro

olga barbara

O que é uma mulher inspiradora? É aquela que mostra que não só dá para ter sonhos interessantes como também, realizá-los. Barbara Soalheiro foi editora da Superinteressante, diretora de redação da Capricho aos 26 anos (a mais nova da história da Editora Abril), editora-chefe da Colors (a ousada revista da Fabrica, laboratório criativo da Benetton) e uma das organizadoras do TedXAmazônia, realizado num hotel flutuante no Rio Negro. Ganhou o prêmio Jabuti em 2007 pelo seu livro Como Vivíamos Sem… e raspou o cabelo todinho durante uma temporada na Índia.

Hoje, seu foco está na Mesa&Cadeira, empresa criada por ela em 2010, cuja proposta é “aprender fazendo”. Um grupo pequeno de participantes se reúne com um especialista e, juntos, trabalham em um projeto até atingir o objetivo – uma forma corajosa de educação que aceita as tentativas e os erros como parte do processo.  “Bancar o que você acredita dá muito trabalho e exige muita segurança – e ser muito segura exige um bocado de esforço! Mas basicamente não tem outra opção: o único caminho é dar a cara pra bater e correr o risco.”


Você acha que a Mesa&Cadeira seria diferente se fosse criado por um homem? Existe alguma coisa especialmente feminina no projeto?

Sim, eu acho que a Mesa&Cadeira é muito feminina. Uma parte grande do processo tem a ver com a experiência em volta da Mesa: o que se come, o que se vê, o lugar onde você está. Quando estamos montando uma Mesa, é uma vibe parecida com a que eu sinto quando eu estou organizando um jantar na minha casa para os meus amigos ou para minha família. E uma Mesa é sempre mais legal quanto mais ela se parece com aqueles grandes almoços longos, em que você se diverte, mas também conversa, discute (usamos o formato que usamos porque eu acho que mesas são a combinação perfeita de diversão e compromisso). Tem algo forte dessa onda de receber bem, de cuidar de quem chega. E isso me parece bastante feminino.

Agora, talvez isso diga mais sobre mim do que sobre a realidade! Um dos cargos que existem na Mesa é “Líder de Experiência”, que é justamente a pessoa que cuida para que todo mundo se sinta muito em casa, muito à vontade, cercada de beleza por todos os lados. Essa função sempre foi ocupada por uma mulher. Recentemente, entrevistei um cara legal demais que está interessado na função. Foi ótimo. É o tipo de cara que produz e “edita’ uma Mesa com muito amor, que recebe os amigos em casa, que cuida dos detalhes. E é um cara. Ou seja, talvez no fundo o fato de eu achar que é muito feminina só mostre que eu ainda atribuo, de forma equivocada, algumas inclinações a mulheres e outras a homens.

Durante as edições do Mesa&Cadeira, você consegue perceber diferença na forma de trabalhar entre homens e mulheres?

Não. Realmente não acho que dá pra fazer uma distinção entre os participantes da Mesa. Mas acho que trabalhar com homens e mulheres é diferente, pela minha experiência na vida. Acho que mulheres se sentem confortáveis em ficar em segundo plano. Eu realmente acho que a Sheryl Sandberg [diretora de operações do Facebook e autora do livro Faça Acontecer] matou a charada quando falou sobre “sentar-se à Mesa”.

Vc já viu essa Ted Talk dela, certo? É realmente impressionante que uma mulher possa chegar a uma reunião, não sentar-se à mesa de discussão e se sentir tranquila com isso. Não é ruim. É só uma diferença grande, porque a grande maioria dos homens não se sentiria tranquilo com essa situação. Acho que homens realmente sentem uma pressão maior para estarem no centro da jogada e conseguem se valorizar melhor/valorizar seu trabalho melhor. E as mulheres tendem a ser mais tranquilas com a posição de número 2. E tem algo muito legal nisso, em você se sentir tranquila por realizar um bom trabalho ao lado de outra pessoa que você considera incrível.

Ainda não rolou nenhum Mesa & Cadeira encabeçado por mulheres. Por que você acha que isso aconteceu?  

A primeira pessoa que eu convidei para liderar uma Mesa foi a Susan Hoffman, uma das sócias da Wieden+Kennedy. A Susan é incrível, genial, honesta, brilhante, gente boa. Eu amaria tê-la na cabeceira, liderando uma semana de trabalho. A agenda dela é difícil e por isso ainda não rolou (quem sabe um dia…) Mas realmente na nossa lista de possíveis líderes e líderes dos sonhos tem muito menos mulheres do que homens. O critério que a gente usa não é, obviamente, o gênero. A gente usa dois critérios na hora de escolher um líder: quem tá fazendo um trabalho muito animal + por quem as pessoas pagariam para trabalhar junto e eu realmente conheço menos mulheres que pontuam muito alto nessas duas categorias.

olga cadeira

O que você aprendeu sobre mulheres sendo diretora da Capricho?

Acho que a coisa mais importante eu poderia formular assim ó: que são muito legítimas as preocupações que gostamos de rotular como fúteis. Deixa eu explicar: eu era editora da Superinteressante e fui convidada para trabalhar na Capricho e participar de uma mega reforma editorial que queria deixar a revista mais… relevante. Não lembro muito o termo que a gente usava na época, mas a ideia era essa: fazer uma revista pra uma menina realmente legal, não boba, que não se preocupasse só com bobagens e futilidades. Toda a redação anterior foi demitida e a galera que chegou era incrível, muito talentosa mesmo.

Isso era 2006 e fizemos a reforma editorial mais radical que o título passou nos seus 50 anos. A primeira edição que lançamos dessa nova Capricho é histórica. A única matéria de beleza tinha uma foto do Bin Laden (é sério!) e era uma pensata genial sobre por que chamamos cabelos crespos de cabelo ruim. A foto do Bin Laden com a legenda “Meu cabelo é ruim? Por que: o seu faz caridade?” é uma das coisas mais incríveis que eu já vi publicadas na imprensa mundial (todos os créditos para Marina Bessa). Bom, colocamos a revista na banca e a circulação despencou. As leitoras não queriam aquilo, não se importavam com aquilo.

O caminho fácil seria dizer que o mundo está mesmo perdido e que todas as adolescentes são umas bobas e fúteis. Mas somos menos ingênuas que isso e, em especial, somos ex-leitoras da Capricho. Teve um momento em que eu comecei a pensar muito sobre por que Capricho tinha sido a revista mais importante da minha história e o quanto tinha sido importante para mim poder contar com uma revista que tratava dos assuntos com os quais eu realmente me importava dos 13 aos 16 anos de idade. Eu lembro de pensar: pô, eu sou uma adulta muito legal. E quando eu tinha 13 anos, o maior problema da minha vida era meu cabelo. E cabelo é mesmo o problema mais importante da vida de uma menina aos 13 anos! E isso importa! Não é fútil. Não é irrelevante! No fim das contas, sinto que rola isso: mulheres que querem ser reconhecidas por sua competência profissional (estou falando de mim, claro, né?) tendem a olhar para coisas com as quais mulheres se importam e rotularem como fúteis. Então, passar meses preocupada com o casamento ou com o enxoval do filho é considerado uma bobagem enquanto a final do campeonato de futebol é vista como um hobby legítimo.

A gente tem uma certa vergonha de falar desses assuntos em momentos profissionais. Como se, para sermos profissionais competentes, não pudéssemos também nos importar com o embrulho do bem-casado. De novo, acho que a Sheryl Sandberg acerta quando conta que, há anos, ela sai do trabalho as 5 da tarde. só que no começo ela não dizia que fazia isso “porque tenho 3 filhos”. Demorou bastante para ela começar a dizer: eu vou embora as 5 porque tenho 3 filhos. O ponto mais interessante pra mim não é que horas ela vai embora e sim o fato de que é importante falar: eu vou embora porque tenho 3 filhos e jantar com eles é importante pra mim e isso não tem nada a ver com ser ou não uma grande profissional.

O que você aprendeu sobre você mesma, como mulher, liderando projetos tão grandes e importantes?

Dirigir a Capricho (de janeiro de 2007 a março de 2008, com a missão de fazer uma nova reforma editorial) e entregar o título vendendo o dobro do que vendia quando eu assumi, me ensinou que fazer coisas grandiosas é legal pra caramba! Que eu adoro ter isso no meu currículo e que eu gosto de verdade de ser uma ótima profissional. Minha temporada na itália, como editora-chefe da Colors, me ensinou:

(1) Que bancar o que você acredita dá muito trabalho e exige muita segurança – e ser muito segura exige um bocado de esforço! Talvez homens façam isso mais naturalmente, por serem culturalmente estimulados desde muito jovens. Mas basicamente não tem outra opção: o único caminho é dar a cara pra bater e correr o risco.

(2) Que eu me sinto confortável sendo a número dois de alguém que eu admire. Pelo menos por algum tempo. O número 1 da Colors era o diretor criativo Erik Ravello. Eu refletia muito sobre isso enquanto estava lá. Sobre o lado legal (é bom você ajudar a construir algo. Haveria um problema no mundo se todo mundo precisasse ser sempre o número 1) e o lado ruim (por que as vezes era tão difícil bancar a briga por mais espaço? Ou por créditos mais favoráveis? Ou por mais grana?).

Construir uma empresa como a Mesa&Cadeira me ensinou que as discussões de gênero são menos relevantes quando você tem que colocar uma empresa de pé! TALVEZ – talvez! estou pensando isso agora – porque a Mesa&Cadeira é como um filho: algo que eu tô gestando, vendo crescer, “ensinando” a andar. E daí não tem nem espaço para as reflexões que rolavam na época da Fabrica ou da Abril. É meio instintivo. Tem que fazer. Tem que sair. Tem que rodar.

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8 Respostas para “Mulheres inspiradoras: Barbara Soalheiro”

  1. Júlia Ourique Medici

    Ser mulher no mercado de trabalho é realmente difícil. Tanto pela competição que algumas insistem em perpetuar, tanto pela auto-sabotagem que – prefiro acreditar – são culpa dos malditos hormônios. Mas a gente consegue, afinal somos SUPER não?

    ps. Em 2003, eu só comprava a Capricho para ler as colunas da Liliane Prata, que comentou este post e que também, indiretamente, me incentivou a seguir o Jornalismo. Ahhh que saudades desta época!

    • Olga

      Júlia, concordo com você: ser mulher no mercado de trabalho é difícil. Mas sou tão otimista com esse assunto. Só de podermos olhar para esse cenário e reconhecermos que sim, a situação é puxada para as mulheres já um avanço. Explico: no livro da Sheryl Sandberg, que a Barbara citou na entrevista, ela conta de uma mulher que, décadas atrás, conseguiu um cargo em uma grande empresa. Na época o chefe disse que estava muito feliz, “pois ele teria uma pessoa tão inteligente quanto um homem, mas com um salário bem menor”. Segundo a Sheryl, nem passou pela cabeça dessa mulher em questão que, caramba, isso era uma grande sacanagem. Naquele momento, ela estava apenas muito agradecida por estar trabalhando. E em um cargo de grandes responsabilidades. Então, mudarmos nosso olhar já é um primeiro passo, assim como identificar os erros e os acertos.

      E que boa coincidência você vir encontrar a Liliane Prata logo aqui. As colunas dela eram realmente muito divertidas (eu já nem era mais tão adolescente e ainda lia rs). Espero que tenha gostado da opção que fez pelo jornalismo. Um beijo!

  2. Não me diga como ser feminista | Olga

    […] por direitos iguais entre homens e mulheres, não posso pegar o nome do meu marido quando casar? Se quero ser uma profissional respeitada, não posso sair cedo do trabalho para jantar com meus fil…? Se sou feminista, não posso gostar de moda? Se exijo respeito dos homens – nas ruas, no […]

  3. Liliane Prata

    Entrevista excelente e inspiradora. Já trabalhei com a Bárbara e a admiro cada vez mais!

    Isso sobre filhos me lembrou muito meu marido, qdo ele trabalhava numa grande empresa. Ele sempre tentava vir para casa às 19h (equivalente das 17h para países subdesenvolvidos?). E o que ele falava para o chefe dele? “Preciso ficar com a minha família, quero ver minha filha antes de ela dormir.” E eu pensava: será que eu teria coragem de falar isso para o meu chefe?

    • Olga

      É curiosa essa diferença na postura, né? Acho que porque fomos acostumadas com a imagem unidimensional da mulher: se é mãe, não pode ser profissional; se é feminista, não pode querer se casar; se lutar contra o estupro, não pode usar saia curta. Mas somos mulheres (pessoas) mais complexas do que isso. E precisamos ter a liberdade para mostrar que assim somos. Espero que tenha encontrado coragem para falar isso para seu chefe. Numa entrevista com a Maya Angelou, nos arquivos da Olga, ela diz: “Ninguém nasce com o dom da coragem. As pessoas a desenvolvem ao longo da vida praticando pequenos atos corajosos”. Pequenos passos, grandes conquistas. Beijos!

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