Malala: “o talebã não vai nos silenciar”

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Em 2010, quando fazia uma espécie de pós-graduação na Universidade de Nova York, escrevi um trabalho sobre um projeto da Unesco que alfabetizava meninas e mulheres do Paquistão por meio do telefone celular.

Por serem mulheres, elas não tiveram a chance de ir à escola. Não sabiam ler ou escrever. A iniciativa funcionava assim: elas tinham aula com uma professora algumas vezes por mês em uma sala de aula, mas os exercícios eram enviados por mensagens de texto e as garotas precisavam responder também por mensagem para serem avaliadas. Uma ideia interessante, para estimular e facilitar o aprendizado.

Com a ajuda da Unesco, várias das alunas responderam ao questionário preparado por mim. Eu queria somente saber a opinião delas sobre o projeto. As respostas me surpreenderam: uma contava que o marido não aceitava que ela finalmente estava sendo alfabetizada e aquilo foi motivo de briga entre o casal. Outra dizia que vivia mais tranquila, porque finalmente conseguia ler as manchetes dos jornais e os anúncios da televisão. Para uma outra paquistanesa, que era mãe, a alegria estava em finalmente poder ajudar os filhos com os deveres da escola.

Dois anos depois, ficamos sabendo da existência da pequena Malala Yousafzai, de 16 anos. Ela corria risco de morte, após levar um tiro na cabeça, ação do grupo Talebã. O motivo: Malala frequentava a escola e tinha uma opinião sobre a condição dela e de tantas meninas paquistanesas.

Quantas vezes, na infância ou adolescência, reclamamos por ter de fazer a tabuada, estudar para uma prova, fazer lição de casa? Malala quase foi assassinada por buscar esse conhecimento que para muitos de nós parece ser óbvio.

Mas Malala foi forte, sobreviveu. Talvez por conhecer um pouquinho sobre a condição das estudantes do Paquistão, tomei um carinho especial por Malala.

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Há duas semanas, a vi de perto. Acompanhei sua chegada nas Nações Unidas e a foto oficial com o Secretário-Geral, Ban Ki-moon. Era 12 de julho. Malala fazia 16 anos e era sua primeira aparição pública desde o ataque. Me pareceu humilde e um pouco tímida. Seguiu para a sala do Conselho de Tutela. A reunião era mais que especial: a entrada estava autorizada apenas para centenas de adolescentes do mundo todo, escolhidos para acompanhar de pertinho o discurso da jovem.

Corri para ver ao vivo, da nossa TV interna. Malala começou o discurso quase que pedindo desculpas por não saber muito bem o que as pessoas esperavam da fala dela… E, de repente, aquela menina começou a ganhar força. Sua eloquência, a precisão com que discursava e o tom de suas palavras me arrepiaram.

Malala relembrou o ataque que quase a matou. Disse que naquele momento, morreram nela o medo e a fraqueza, enquanto nasceram a força, a coragem, o poder. Ela explicou que perdoou os talebãs que a atacaram e que deseja que todas as crianças do mundo tenham acesso à escola, inclusive os filhos dos talebãs. Malala lamentou que os extremistas temam o poder dos livros e do ensino, segundo ela, exatamente porque eles não sabem ler ou escrever.

Durante todo o discurso de Malala, de quase 18 minutos, só conseguia pensar em uma coisa: o mundo precisava conhecer Malala Yousafzai. Infelizmente, ficamos sabendo de sua existência após uma ação terrorista. Mas torcemos, rezamos, e Malala sobreviveu.

E ali, na ONU, discursando em público pela primeira vez, Malala mostrou ser mesmo especial. A garota falava como uma mulher e provou já saber lutar pelos seus direitos.

Malala ensinou muita coisa ao mundo naqueles 18 minutos. Ensinou sobre condições de educação no Paquistão, sobre terrorismo, sobre fé, sobre perdão, sobre empoderamento feminino, sobre educação igualitária. Ela é única e por isso, renova a esperança em um futuro melhor para tantas Malalas, espalhadas por esse mundo.

“Numa noite de outubro, em 2012, o Talebã atirou no lado esquerdo da minha testa. Eles atiraram nas minhas amigas também. Eles acharam que a bala iria nos silenciar. Mas eles falharam. E do silêncio deles surgiu milhares de vozes. Os terroristas acreditaram que eles mudariam meus objetivos e brecariam minhas ambições, mas nada mudou em minha vida, com exceção disso: a fraqueza, o medo e a falta de esperança morreram. Força, poder e coragem nasceram.” Veja o discurso completo aqui:

No dia seguinte ao discurso de Malala, na ONU, o Talebã divulgou uma carta aberta à jovem, explicando o motivo que levou ao atentado: ” Não vou argumentar se foi correto ou não, se você merecia ser morta ou não. Você disse, em seu discurso, que a caneta é mais poderosa do que a espada. E eles te atacaram pela sua ‘espada’ e não por seus livros e a escola”.


Leda Letra é jornalista da Rádio ONU. Seu depoimento é pessoal e não representa a opinião das Nações Unidas.

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