Mulheres inspiradoras: Nina Weingrill

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A jornalista Nina Weingrill é uma daquelas pessoas que sempre tiveram “vontades de fazer coisas”, como dar vida a ideias megalomaníacas que fossem boas para ela e para os outros. Mas o quê? E como? Durante um trabalho voluntário numa ONG de São Paulo, onde dava workshops de criação de revista, descobriu seu caminho: o da educação. “Aprender é divertido pra caramba. É só observar um bebê, quando ele dá o primeiro passo solta uma gargalhada gostosa”, diz.

Foi aí que, ao lado da sócia Amanda Rahra, criou a ÉNóis, agência e escola cujo objetivo é o ensino de jornalismo para jovens de baixa renda. Aqui, ela conta como levar os moradores da periferia ao mundo da comunicação pode ajudá-los, como essa participação mais efetiva também pode melhorar o jornalismo e como é falar de feminismo nas áreas mais afastadas do centro da cidade.


Você teve uma experiência com voluntariado que mudou sua vida. Como foi essa história?

Foi assim: no finalzinho de 2008, uma amiga do trabalho (que hoje é a minha sócia – Amanda Rahra), veio me contar entusiasmada que tinha visitado uma ONG no Capão Redondo pra fazer uma matéria e que a gente TINHA que fazer alguma coisa lá. A gente conversou sobre essas vontades de fazer coisas (que até então não tínhamos ideia do que eram) numa viagem de táxi, algumas semanas antes. Eu imediatamente disse que sim. Bora! Aí nós e mais uma amiga, fotógrafa, a Laura Sobenes – que hoje é ativista da bike – , nos juntamos num sábado de manhã pra pensarmos o que é que a gente poderia fazer com a molecada dessa ONG.

Decidimos dar uma Oficina de Fanzine. Pra gente era confortável porque vínhamos do mercado editorial, de fazer revista. Então ficou combinado que usaríamos os quatro sábados de janeiro de 2009 pra ensinar um pessoal a fazer fanzine. E que deveria ser divertido.

Chegamos lá e demos de cara com cinco gatos pingados (quatro meninas e um menino). A aula tinha sido preparada pra 20 – porque a gente é magalomaníaca mesmo. Daí não ia rolar. Então a gente se olhou, pediu pra eles fazerem uma roda e começamos a conversar. Passamos o dia com eles batendo um papo sobre periferia, juventude, comunicação, futuro. Lembro da cena da gente pegando o carro, na estrada de Itapecerica, sem conseguir conversar – e olha que isso pra gente é muito incomum. Ficamos meio bestas com o que tinha acabado de acontecer. Aquilo mexeu com a gente de um jeito! Sabe quando você faz uma coisa que tem sentido, tipo uma luzinha que entra em você? Te acende.

Voltamos no sábado seguinte e eles tinham trazido os amigos. A coisa foi crescendo e a gente resolveu deixar o fanzine de lado e fazer logo uma revista (ó a megalomania de novo). Chamamos mais amigos, todos voluntários, que ajudaram a editar textos, diagramar páginas e ilustrarar matérias. E ficamos todos os sábados – de janeiro a julho – fazendo a Zzine e aprendendo muito sobre educação. No final, eles eram em 30. Uma redação jovem, articulada, com sangue nos olhos pra fazer essa revista vingar. Fomos atrás de papel e conseguimos uma ajuda pra imprimir os exemplares na editora em que ambas trabalhávamos na época. Quando eles receberam a revista e viram os nomes impressos, juro, eles gritaram. Gritaram mesmo. Foi muito forte. E daí mudou tudo. Resolvemos escrever o que a gente tinha aprendido no papel – isso é, sistematizar uma metodologia -, inscrevemos o projeto, com ajuda da ONG, numa lei de incentivo e transformamos a Zzine em uma revista publicada trimestralmente, que empregava jornalistas, designers, fotógrafos e nossos mini-jornalistas, numa salinha no Capão Redondo, uma das regiões mais violentas da cidade.

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Explique o que é o Énois e o que despertou em você a necessidade de criá-lo?

Énois é a evolução dessa história. Durante esses dois anos em que tocamos a Zzine na ONG, apenas um ano foi financiado. Projetos incentivados por lei não existem para dar perenidade e continuidade a nada. São investimentos pontuais e a lógica é essa. Soma-se a isso uma falta de organização tremenda do sistema, que pode deixar qualquer pessoa louca. Nosso projeto foi aprovado pelo FUMCAD (Fundo Municipal do Direito da Criança e Adolescente) em dezembro de 2010. Na esperança de que o dinheiro fosse liberado no ano seguinte – para comprarmos equipamentos, contratarmos educadores, pagarmos a impressão da revista, etc -, começamos a tocar o projeto em janeiro de 2011. O dinheiro foi liberado só em 2012. Para não interromper um processo que a gente tinha começado com os jovens, continuamos a história – sem computadores, equipamentos, grana de impressão… Daí fizemos um blog: http://www.revistazzine.org

No meio dessa loucura toda, a gente resolveu pedir demissão do trabalho e investir nessa história, pra pensar como poderíamos tornar sustentável essa história de formar jovens para produzir conteúdo para suas comunidades, que a gente acreditava ser uma oportunidade. Criamos então a Énois – Agência Escola de Conteúdo Jovem e vamos lançar em agosto a nossa plataforma online de ensino de jornalismo para jovens de baixa renda.

Por que você acha que o jornalismo pode ter um impacto tão grande no desenvolvimento de um jovem?

Eu não descobri nenhuma roda. Quando comecei a dar aula, a USP já tinha criado até um curso de pós-graduação em educomunicação. Nós apenas colocamos em prática o que muita gente faz por aí. Aprender comunicação é libertador para o jovem. Quando ele entende que pode usar o jornalismo pra entrevistar a diretora da escola, se aproximar dela e depois questioná-la sobre a falta dos professores, o jogo muda. Ele começa a sentir que pode fazer coisas. Fica mais articulado. Quer entender o mundo. Fica interessado. E acho que o maior problema que as escolas enfrentam hoje é esse: o jovem desinteressado. Acontece que as escolas se esqueceram de cuidar desse cara, se distanciaram dele. É impressionante quando a gente chega em uma escola e mostra pro coordenador, pro professor, que o menino pode aprender português fazendo uma revista. E que daí ele vai se engajar, porque é divertido. Aprender é divertido pra caramba. É só observar um bebê, quando ele dá o primeiro passo solta uma gargalhada gostosa.

Tem uma história engraçada. Estávamos chegando ao final do projeto com uma das turmas e nosso núcleo duro de alunos tinha acabado de receber as notas do boletim e vieram trazer pra gente ver. Eles tinham aumentado a média de português de 5 para 10 e estavam incrédulos. Achavam que era brincadeira do professor. Pra gente foi um choque também, porque a gente nunca ensinou português pra eles. E daí fomos descobrir que aqueles que tinham criado o hábito de ler e escrever tinham aumentado as notas no geral, porque conseguiam interpretar melhor o mundo.

E como você acredita que o jornalismo pode ser impactado com a participação desses jovens?

Tem um texto da Suzana Singer, ombudsman da Folha de SP, que resume a importância de ter esses jovens fazendo jornalismo nas suas comunidades, na favela e também dentro das grandes redações. Ela diz: “Quanto mais se afasta do centro da cidade, mais evidente fica a fragilidade da reportagem. A Folha não entende e não conhece a periferia de São Paulo. Talvez seja um reflexo da própria Redação, formada majoritariamente por brancos (e brancas), de alta escolaridade, que vivem no cinturão privilegiado da cidade – composição que se repete nas grandes redações”. Esse texto foi publicado logo após o fenômeno Russomano, que só crescia nas pesquisas de voto, e a Folha não conseguia explicar o porquê. A desigualdade social brasileira é refletida na produção de informação. Apresentar o jornalismo como ferramenta a esses jovens é uma oportunidade de fazer o Brasil se conhecer de fato.

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Como é falar de feminismo na periferia?

Cara, que pergunta cabeluda. Não sou nenhuma especialista nesse tema. Vou contar o que penso a partir daquilo que vejo e convivo – por parte das meninas. Um dia, chegou aos nossos ouvidos que alguém tinha chamado a nossa revista (a Zzine) de “Capricho do Capão”. As meninas chegaram na redação bufando. E ficaram ainda mais revoltadas quando descobriram que a “piadinha” havia sido feita por um homem – mais velho e dito sabido das coisas do mundo. “Como assim Capricho do Capão?”. Abrimos uma roda pra discutir o assunto e chegamos a uma conclusão linda: isso não era um xingamento, uma zoação. Pra gente, era um elogio. Primeiro, porque a Capricho é uma revista de sucesso, que vende. Todo mundo conhece. Segundo, que a Zzine – feita por uma redação majoritariamente feminina e engajada – levava para meninas (e meninos) da escola pública assuntos de interesse, como DST, gravidez da adolescência e a emoção de ir no primeiro pancadão. Mas falava também de política estudantil, de falta de professores na escola, da alfabetização dos pais. Ou seja, ser tudo isso era ser feminino. Então o cara tava certo. Porque política também é coisa de mulher, educação também é coisa de mulher. Foi lindo, e aí as meninas saíam falando de boca cheia que eram a “Capricho do Capão”.

Existe diferença entre a auto-estima do menino e a da menina na periferia?

Quatro anos atrás, na sexta-feira anterior à nossa primeira aula, eu, Amanda e Laura estávamos terminando de arrumar as coisas e nos fizemos aquela pergunta que toda mulher já fez pra amiga, pelo menos uma vez na vida: com que roupa você vai? A gente sabia que a ONG tinha um dresscode muito rígido com todos, especialmente com as meninas. Desistimos de entrar em consenso e decidimos que cada uma ia do jeito que se sentisse confortável. Chegamos as três de vestido – porque tava um calor infernal.

Daí encontramos as meninas de cabelos presos, de calça jeans e camiseta, com moletom amarrado na cintura. Vestidas como os meninos. Com o tempo fomos percebendo que isso não era uma questão apenas de referência, mas sim de proteção. A roupa, a gente sabe, é um jeito de mandar uma mensagem. E eles diziam claramente que estavam fechadas ali, pra gente, pro mundo. Mas o fato de irem ao nosso encontro – e continuarem voltando – de alguma forma transformou algo nelas. No final do curso, no lançamento da primeira edição, foi engraçado perceber que elas tinham soltado o cabelo e, quem diria, estavam de vestidos coloridos.

A periferia é um espaço que protege pouco a mulher, que, para se defender, meio que se camufla de homem na roupa, no gesto, na fala. E ser sensual, ser bonita, ser livre é perigoso, porque é como se você estivesse dizendo que seu corpo não é seu, que suas escolhas não são suas, só porque você resolveu usar um decote.

Qual foi a maior mensagem relativa às mulheres que você recebeu da vida na periferia?

Se eu tivesse que escolher um símbolo para a periferia, ele seria a mulher. São elas que criam os filhos e sustentam a maior parte das casas de onde vêm os jovens com os quais trabalhamos (mesmo quando envelhecem, criando também os netos). Faz todo sentido pra mim, por exemplo, que o Muhammad Yunus – Nobel da Paz – tenha focado a energia do seu negócio para o desenvolvimento social e econômico das mulheres em Bangladesh. Ele parte do princípio de que, se a mulher melhora de vida, ela vai passar isso para a próxima geração. E isso é desenvolvimento. Hoje elas são mais de 90% dos beneficiados pelos microcréditos de seu banco, o Grameen Bank e que, portanto, tem uma taxa de recuperação do crédito de 98%. De invejar qualquer banco por aí. Ele descobriu, por exemplo, que ao vincular o empréstimo para compra de terrenos ao nome das mulheres, a taxa de divórcio caía drasticamente. Apesar de distantes, as periferias do Brasil são muito parecidas com a de Bangladesh – e muito por causa da resiliência dessa mulher.

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Divida com a gente algumas histórias interessantes de meninas inspiradoras que participam do ÉNóis.

A Bia é uma dessas mulheres que fez parte da primeira turma da Énois e hoje a gente morre de orgulho de ter feito parte de um pedaço da vida dela. Nascida e criada no Capão Redondo, zona Sul, a Bia é uma menina quieta e séria – e que andava com os cabelos cacheados presos. Começou a escrever, a gente viu que ela tinha talento e vontade de saber, de conhecer. Quando renovamos o projeto, planejamos uma verba pra contratá-la. Então Bia foi nossa primeira estagiária. E daí ela passou no PROUNI e foi estudar comunicação na PUC. Trabalhava pra gente, estudava, fazia um bico em uma agência e estudava francês no fim de semana. Ela se inscreveu numa bolsa pra estudar na França. Passou, claro. Ficou morando lá um ano. Deixou a gente, sua família e sua namorada morrendo de saudade. Voltou e veio aqui almoçar com a gente, dizendo: os franceses não querem saber de estudar, não! Como a Bia, a gente deu a sorte de encontrar meninas incríveis que estão buscando um lugar novo para elas – por mais assustador que isso pareça pros meninos. Ensinando suas mães a aprender a ler e escrever, cobrindo a mãe de madrugada no trabalho, cuidando dos irmãos mais novos, fugindo do tráfico pra ser fotógrafa e estudando música com um violino velho, desafinado e emprestado.

Você não tem nem 30 anos e já é sócia de uma startup voltado para a educação e comunicação que é fortemente ligado à tecnologia e inovação. Que dicas você daria para outras mulheres que querem ser líderes no mundo profissional?

Uma amiga disse esses dias que, em algumas culturas, homens e mulheres são comparados respectivamente ao sol e lua. O sol nasce e se põe todos os dias, com regularidade, respeitando horários e seu percurso. Já a lua muda de formato, uma hora é crescente, outra é cheia, outra é minguante. Poético! Fez sentido pra mim. Quando a gente começa a crescer profissionalmente, começa também a agir como homem, porque acha que essa é a forma de gerir uma empresa, de administrar uma equipe, de ser “profissional”. Porque acha que é assim que vai ser respeitada. Maior besteira. Eu nunca quis ter funcionário, até acho isso meio brega. Minha vontade sempre foi fazer coisas legais com gente que admiro. E daí, quando começamos a startup, lá estava eu repetindo padrões que conhecia. Tem coisas do feminino que precisamos respeitar. As mudanças de humor, as coisas divertidas – tipo escolher um par de brincos em meio a milhares de brincos que os homens acham todos iguais. Quando assumimos isso, a gente se liberta. Sabe que pode ser inteligente, fazer coisas legais, querer casar, ter filhos e comer chocolate. Isso tudo sem ter dupla personalidade! E acho que essas qualidades, de pessoas que ajudam as outras a serem criativas, a trabalhar com liberdade, mais do que um líder que comanda, é o que o mundo profissional busca hoje.

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5 Respostas para “Mulheres inspiradoras: Nina Weingrill”

  1. lusaler

    Nina querida, q orgulho ter trabalhado com vc! Parabéns, por esse novo rumo q tomou. Torço mto po vc. Bjo

  2. Suraia Calixto

    É uma bonita história de emancipação da mulher no mundo profissional e também de sensibilidade social, de solidariedade , exemplo de projeto de inclusão social.
    Já senti na pele, no âmbito profissional a falta de iniciativa do Estado com a questão social , o que sempre me indignou .Cheguei a elaborar uma tese sobre um projeto social na periferia da Zona Leste- Itaquera, com mulheres líderes de movimentos sociais que aprenderam a se emancipar com projetos de geração de renda. Sempre sonhei com outro modelo de inclusão social . Fiquei muito feliz com a iniciativa inovadora.
    Parabéns, Nina!
    Suraia Calixto- Assistente Social

  3. Marisa

    Quando leio iniciativas como essa,sinto uma alegria imensa!
    Parabéns!

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