Não sou a mãe perfeita. Nem quero ser

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Muita gente tem uma visão antiquada de como uma mulher deve ser e se comportar. E, quando ela se torna mãe, esses estereótipos parecem se reforçar. Não à toa, a frase “ser mãe é viver com culpa” é tão divulgada. “A pressão é de que a mulher precisa ser uma heroína. Ela cuida da casa, da alimentação, do marido, dos filhos, trabalho, carreira, da saúde… E ainda achar um tempo para estar bem informada, se vestir como pede a moda, com o corpo em dia”, afirma Barbara Thomaz, ex-apresentadora do canal Glitz. “Os médicos pedem para que o bebê seja amamentado até os 6 meses, mas ela só tem 4 de licença maternidade. Se for celebridade, 2 ou 3 no máximo. A sociedade pressiona para que ela seja a mãe perfeita, mas não facilita em nada.” Aqui, ela dá um basta à pressão e nos ajuda a desconstruir os mitos da maternidade que tanto afligem as mulheres.


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GRAVIDEZ NÃO É UM PASSEIO NO PARQUE

A pressão sobre a mulher quanto à maternidade já começa na gestação, quando as pessoas esperam que você esteja RADIANTE. Quem espera isso de uma grávida provavelmente nunca passou pela experiência. Tive momentos em que sentia uma péssima mãe, porque nem sempre estava achando bacana aquela história de sono, ou de enjoo, espinhas, dores nas costelas, na coluna, dificuldade para dormir, uma bexiga do tamanho de uma cereja, hormônios ensandecidos. Perdi todas as roupas, tinha uma fome enlouquecedora, morria de medo do parto. Gravidez não é divertida: não podia beber, fumar, comer um monte de coisa que amava. Ainda ganhei 22 kg e pesava a responsabilidade enorme de gerar um filho 100% saudável. Como ficar radiante? Vou perguntar para aquelas moças dos comerciais de absorvente, elas entendem muito bem de conto de fada.

O PARTO PERFEITO NEM SEMPRE ROLA

Demorou nove meses para cair a ficha. Passei a gestação tendo dois empregos, trabalhando muito, viajando o Brasil e o mundo, guardando dinheiro porque sabia que os próximos meses seriam bem onerosos… Mas foi estressante. Me sentia sobrecarregada e já temia por um futuro parecido. Passei a perceber que não queria ser a mãe workaholic. Estudei, li tudo sobre gestação, parto, bebês, métodos de educação, psicologia… Virei a mãe nerd.

Bastou o parto para entender que ser mãe é uma questão de entrega, e não de controle. Nada aconteceu como eu esperava, fiquei frustrada comigo mesma, passei quase 20 horas em trabalho de parto. E, no fim, acabei cedendo para a anestesia e não pude sentir meu filho nascer como queria. Me senti menos mulher. Só faltou me dar chibatadas. Parecia uma louca me desculpando para o médico, para o meu marido e para a doula. E aí veio… “Epa! Quê isso? Calma aí… Eu fiz o meu melhor”. Estava sendo muito dura comigo mesma, e resolvi relaxar, aprender a improvisar e encarar as falhas com bom humor. O Enricco, meu marido, me ajuda muito nesse sentido. Sei que não sou a mãe perfeita, porque não sou uma mulher perfeita, porque não fui uma criança perfeita, porque meus pais, a sociedade, a medicina, a história, o mundo, nada é e nunca vai ser perfeito. Perfeito é chato, é artificial, é pura neurose.

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TODO MUNDO TEM UM PALPITE

Grávida é domínio público. A pressão vem até de estranhos, com perguntas, palpites e conselhos que você nunca cogitou solicitar. Parece incontrolável – as pessoas querem repassar as próprias convicções e experiências, ignorando completamente o fato de cada pessoa, cada gestação, filho ou marido é diferente. Um dos conselhos que mais ouvi foi o de optar por uma cesárea, pois depois do parto normal a vagina ficaria “frouxa”. Opa! Peraí… Quer dizer que isso poderia deixar o meu “mais precioso bem” prejudicado, e isso me faria o que? Uma mulher imprestável? Já imagino o motivo do divórcio: instrumento de prazer masculino avariado.

Depois vem a chuva do “não pode”: não pode ficar muito no colo, não pode sair de casa até os 3 meses, mamar só de 3 em 3 horas, deixa chorar no berço. Dei muito colo, muito peito, fomos na Bienal no primeiro mês, no segundo viajamos, fiz cama compartilhada até os 3 meses… Levei ele comigo até na manicure. Dei de ombros para quem disse que eu era louca de tentar o parto natural, também fiz o mesmo quando disseram que ele ficaria mal acostumado com amor, proteção e peito, fiz cara de paisagem com a senhora que nos parou um dia no shopping e nos mandou voltar para casa com o bebê pois ele só tinha 2 meses. Dei um sorrisinho paciente com quem me chamou de louca por fazer uma viagem deliciosa com minha família, com qualquer pessoa que invadisse a minha vida sem permissão ou afim de me julgar.

Uma mulher bem informada está empoderada e esse é o escudo para suas escolhas. Faça à sua maneira. É difícil ser mãe, é mais difícil ainda optar por não ser. Até nisso todo mundo vem meter o bedelho.

A IMAGEM TRADICIONAL DE MÃE INCOMODA

Por mais que você tente retornar a vida normal (dentro do possível), as pessoas esperam comportamentos diferentes das mães. Já ouvi de pessoas próximas coisas como “nossa, nem parece que você é mãe”. Hein??? Não fico chateada, porque sei que cumpro meu papel. Internamente, isso está muito bem resolvido. Aliás, passo o dia todo por perto, quando posso o levo comigo. Ser mãe não é ser chata, nem careta, nem pudica, nem santa. Ser mãe é acima de tudo estar emocionalmente disponível para o filho.

Minha imagem não existe mais sem o fator maternidade. Sinto isso na minha carreira e na curiosidade das pessoas a meu respeito, que mudou de foco. E tudo bem, porque também mudei de interesses, tenho outras opiniões, já não tenho mais paciência com certos assuntos, lugares e pessoas. Mas não é apenas pela maternidade. Faz parte do amadurecimento. As pessoas só precisam entender de uma vez por todas que as mães vivem.

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(NÃO) TRAGO SEU CORPO PERFEITO EM 3 DIAS

Logo quando o Theodoro nasceu começaram as perguntas: “E aí? Já emagreceu tudo? Tá na academia? Vai tomar remédio? Quando você volta a trabalhar?” Olhava para o lado, lá estava a mídia vendendo absurdos. Via uma conhecida cantora de axé saindo da maternidade quase de TOP, e dois meses depois já estava com a barriga chapada, pulando em cima de um trio. Parabéns, mas não, obrigada. Cada uma no seu tempo.

Você mal saiu da maternidade, ainda está tentando entender como o bebê funciona, está sem energia para mais nada além do filho, a rotina está de ponta-cabeça e o casal está se desdobrando para aprender uma nova dinâmica. O mundo não te dá esse tempo. Você quer curtir, mas te apressam. Quer relaxar, mas tem pressão. Isso nos faz sentir culpa por estar reclusa mesmo se dedicando integralmente como mãe. A mulher se sente improdutiva, feia, gorda, fora do mundo. Tive os meus momentos tensos e acabei descontando no meu marido, coitado.

E amamentar não emagrece!!! Pode funcionar para algumas mulheres, mas, assim como eu, muitas amigas sentiram que a fome aumentou. E você continua retendo líquido. No pós-parto perdi dez quilos. Um mês depois, três quilos resolveram voltar!! Enquanto não parei de amamentar, foi bem difícil perder peso.

“OS FILHOS SÃO UMA EXTENSÃO DE VOCÊ”

Os filhos são uma prioridade, mas a gente não pode perder a liberdade, nem a capacidade de se fazer feliz. Não adianta esquecer de você, da sua vida, dos seus sonhos e do casamento. Achar que os filhos são sua extensão é um peso enorme sobre a criança, tirando inclusive a liberdade dela como indivíduo. Sufoca e ainda tira espaço do pai. Te aprisiona. Existe uma simbiose inicial incontestável, e fui sentindo esse descolamento aos poucos. Está sendo lindo perceber que ele é um ser próprio. E ainda tem muito por vir.

NÃO DÁ PARA SER HEROÍNA

A pressão é a de que a mulher precisa ser uma heroína. Ela cuida da casa, dos empregados, da alimentação, do marido, dos filhos, do trabalho, da carreira, da saúde… Ainda deve achar um tempo para estar bem informada, se vestir como pede a moda, com as unhas, os cabelos, a pele e o corpo em dia. Para ter filho, ela para a carreira e morre de medo de como vai retornar. Não sabe se será substituída ou demitida.

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PRESSÃO TAMBÉM NOS PAIS

Onde estão os trocadores no banheiro masculino? Não se espera que os pais troquem fralda? E a licença paternidade? 5 dias úteis? Se eu fosse homem, ficaria puto. Estão tirando o papel do pai, subestimando o interesse e a capacidade deles.

O TRABALHO E A CULPA

Essa foi a primeira frase que ouvi: “Vai se acostumando, que ser mãe é ter culpa”. Quando estava em casa cuidando do Theo, às vezes me sentia inútil, improdutiva… Quando pensava na rotina que tinha antes, sofria por não conseguir me imaginar perdendo toda evolução do meu filho. Daí surgiu a ideia de investir em um projeto, onde eu pudesse fazer meus horários e estar mais perto do meu pequeno. Hoje estou me dedicando a esse novo plano dentro de casa.

Descobri que, se for para sentir culpa, melhor não fazer. Em primeiro lugar porque a criança capta muito bem as expressões. Se o bebê vê a mãe saindo de casa com culpa, ele automaticamente vai entender que algo ruim está acontecendo, e vai sofrer. Acho saudável para os pais e para a criança que exista liberdade, que os momentos de separação sejam bem compreendidos e bem vividos, sem exageros.

Ela vai saber que o trabalho é prazeroso, que os papais tem seus momentos de namoro, de diversão e que eles voltam, sempre estarão ali. Noto que muitas pessoas, mesmo as que ainda não são pais, estão mudando sua relação com o trabalho, priorizando qualidade de vida e refazendo os planos para evitar a culpa de não ser fiel aos seus desejos internos. Mães que corajosamente optam, por exemplo, por pararem de trabalhar e se dedicarem apenas aos filhos. É uma maneira de pressionar esse sistema opressor, cada um a sua maneira.

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17 Respostas para “Não sou a mãe perfeita. Nem quero ser”

  1. Teresa Roberta S. B. Freitas

    Estou grávida e me tranquilizei muito quando li este texto. Realmente as pessoas botam uma pressão enorme em cima de nós e esquecem que, acima de tudo, somos seres humanos como outro qualquer. Mãe é algo lindo, mas não é de ferro, não é de borracha, não é blindada. Eu também não quero ser a mãe mais perfeita do universo, quero ser apenas a mãe que meu filho precisa que eu seja. Amei seu texto.

  2. Line

    Foi o texto mais bonito, mais humano e mais sincero que já li. É tudo tão incoerente, e ainda insistimos em não enxergar a pura crueldade da situação toda. Você já nasce errado por ser humano, e não importa suas escolhas, em algum momento virá alguém com o dedo na sua cara dizendo que deveria ter feito diferente. É complicado. Mas por sorte, vejo textos como o seu por aí, de pessoas que tiraram pelo menos um minuto na vida pra pensar e ver o quão absurdo é essa cobrança toda. O quão ilógico e irracional até.

  3. Cândida

    Minha mãe sempre trabalhou, saía sozinha com o meu pai e pagava quem precisasse pra tomar conta de mim e do meu irmão, não deixou de viver por ter dois filhos, mas também não deixou de se doar. É o meu exemplo, mas é duro tentar segui-lo já que amigas, sogra e outras pessoas que não tem que dar palpite nenhum na sua vida acham que podem dizer que você tem que ter mais de dois filhos ou que você tem que ter ao menos um filho, como se você não fosse capaz de fazer a escolha correta para a sua própria vida. Amei o texto, obrigada por compartilhar, não estamos sozinhas.

  4. Janaina Rochido

    Assino embaixo de tudo! Perfeito esse relato! E ainda acrescento mais: o que é aquela mania odiosa das pessoas de acharem que podem ficar te tocando quando você está grávida? Todo mundo de repente acha que pode alisar a sua barriga! Eu não deixava e fiquei com fama de antipática, mas nem liguei – mesmo grávida, o corpo era meu, oras!

  5. Jully Fernandes

    Perfeito seu texto, sensacional!! Vou compartilhar na minha pagina do facebook, pq considero que é tipo de coisa que TODO mundo deve ler! Ja escrevi coisas parecidas no meu blog mas sempre é necessário reforço! Obrigada por conseguir expressar tão bem o que todas as mães têm vontade de gritar!

  6. Mirian Zavarelli Fracasso

    Texto lindo… que vem ao encontro dos medos e aflições que as vezes estão desde a pele até a alma!!
    Fotos bárbaras, carregadas de afeto…
    Continue sempre no caminho, parabéns!!
    Meu nome é Mirian, mãe de Pedro e Gabi!!

  7. melsavi

    Reblogged this on Mais Que Mães and commented:
    Blog bem legal da Babi Thomaz, ex-apresentadora do canal Glitz! Tem a ver com várias reflexões que a gente faz aqui no blog. Super apoiamos o movimento “Não sou a mãe perfeita. Nem quero ser”!
    Esperamos que vocês curtam!

  8. Letícia

    Adorei o texto! Mãe de 2 filhos vivi essas e outras mais situações que não condizem com a realidade. O ideal é cuidar dos filhos com amor e paciência, estar aberto para o novo, para aprender a cada dia. E reinventar uma maneira de conseguir ser mulher, mãe e profissional sem se encaixar nesses padrões mentirosos.

  9. Virginia Castiglione Hickmann

    Oi, Bárbara, tu não estás sozinha no teu pensar. Eu acho que o que mais incomoda são as opiniões externas e não solicitadas. Como disse Sartre: o inferno são os outros. E realmente é assim. Minha bebê vai fazer 7 meses e só agora estou relaxando, entendendo melhor que eu não acerto 100% do tempo e nem tenho que acertar. E tenho certeza de que sou uma mãe excelente, a melhor que a minha filha poderia ter. Mas esses primeiros 6 meses foram de muito choro (meu e dela) e muito eu me sentir um lixo o tempo todo. E pra ajudar ainda tive a “ajuda” da minha própria mãe pra me sentir pior, fazendo comentários horrendos o tempo todo (porque vc não usa uma cinta? teu marido vai te largar se vc continuar gorda – porque sua filha está chorando? que tipo de mãe deixa a filha chorar? e por aí vai). Mas acho que agora estou superando porque posso estar em casa cuidando da minha filha, porque posso acompanhar o desenvolvimento dela, todos os milestones do 1o ano, que são tão importantes e lindos.

  10. Ivana Almeida

    perfeito o texto. é exatamente assim que funciona as pressões internas e externas, num jogo que a gente custa a fechar a equação. e ainda por cima ser feliz. ou procurar…

  11. Regina Lacerda Fonseca

    Costumo dizer que mãe é uma mulher que teve filho…..Observe bem, antes ela é um ser humano, depois mãe.
    Você está certíssima!!!

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