Tricô: um caminho para a independência

olga vovo

Durante a luta feminina pela autonomia das últimas décadas, o tricô ficou em segundo plano. A técnica – assim como outras práticas manuais – representava a época de nossas avós e bisavós, quando o papel da mulher se restringia ao ambiente doméstico. Mas será que não perdemos uma habilidade divertida, importante e até libertadora? Cristiane Eloisa Bertoluci, 29 anos, é professora de tricô. E explica o que um novelo de lã e duas agulhas podem fazer pelas feministas.

Por que você acha que a prática do tricô foi deixada de lado?

Houve um movimento de conquista do mercado de trabalho e de independência financeira feminina cujo resultado foi o abandono (total ou parcial) dos trabalhos domésticos. Nos focamos no fator negativo de ser “dona de casa” e esquecemos de enxergar a liberdade existente nas nossas artes manuais. Outro fator foi a evolução da indústria, principalmente na área têxtil. Ficou muito mais barato comprar uma peça do que tecer algo.

Você disse que aprender a tricotar é uma forma de conquistar liberdade. Como isso acontece?

É uma das principais frases da estilista francesa Alice Lemoine: ao tricotar uma peça, a nossa vontade vai da escolha das cores, da agulha, da textura, do tamanho, de tudo! Não dependemos do que o mercado nos oferece. Tricotar é uma maneira de expressar todas nossas preferências.

Como o conhecimento de tricô muda a visão das mulheres em relação à moda?

Acho que criamos uma consciência de tempo e de qualidade. Quando uma aluna começa a tricotar, ela pensa muito no preço de tudo que ela esta fazendo. Por exemplo: na Novelaria, onde dou aula em SP, os fios são nobres, os tingimentos são artesanais… São tão diferentes de tudo que já vimos no mercado. Então criamos um desejo por algo de qualidade. Noto que as alunas dão muito valor ao toque, principalmente porque estamos em constante contato com o fio que tricotamos. Elas procuram entender melhor quais fios criam bolinha, quais são adequados para cada caso e o porquê. Essa consciência se dá também em acabamentos: todas sofrem com as costuras, os detalhes… Até mesmo escolher um botão especial para a peça que elas demoraram 3 dias tricotando! Já tive muitas alunas que disseram: “fui numa loja e vi um tricô lindo, mas a costura estava péssima. Como pode? Um preço tão alto por um acabamento ruim?”.

Você é adepta do craftivismo (craft + ativismo, prática que incentiva o tricô e o crochê como forma de questionar o consumismo, questões sociais e do meio ambiente), como criar peças de tricô em árvores, organizar “tricotadas” em espaços públicos... Você poderia contar um pouco sobre essas experiências?

Acho que estamos tentando levar as técnicas manuais para outro entendimento – rever as tradições e trazê-las para o contexto atual. Acho que, por meio de instalações e intervenções, conseguimos transmitir muitas mensagens: a de cuidado com a nossa cidade, a vontade de estar no espaço urbano, a vontade de ter essas técnicas de volta. Estar na rua – tanto colocando um tricô na árvore quanto tricotando em um espaço público – é visto como algo novo, quando, na verdade, já deveria fazer parte do nosso conhecimento e cotidiano.


No texto abaixo, Cris tricota algumas ideias sobre como é a experiência de ensinar mães e filhas a se sentarem juntas para aprender uma arte que as duas gerações acabaram ignorando.

“Ao chegar na loja de lãs, a cliente se encanta com a parede colorida, com fios das mais diversas composições e macios como um gato persa. Ela, que nasceu nos anos 1980, não sabe nem segurar uma agulha. Determinada, inicia seu primeiro cachecol, sentindo-se com oito mãos esquerdas. Aos poucos, entende como as duas mão se sincronizam e fazem o tecimento. Perguntava-se incansavelmente: por que eu não aprendi a tricotar antes?

Ao chegar na loja de informática, a cliente foi em busca do que as amigas tanto falam: um iPad. Ela morre de medo de computadores, porém todos diziam ser “muito fácil de usar”. A vendedora mostra, num toque de mágica, como pesquisar o mundo dentro daquele aparelho. Descobriu jogos viciantes, criou uma fazendinha e, no mesmo dia, conquistou um amigo. As duas clientes vão para casa, sentindo a liberdade nas próprias mãos. A cliente da loja de lãs mostra para a sua mãe: “olha, meu primeiro tricô em lã merino. Sabe o que é merino, mãe?”. A mãe responde: “não sei filha, mas com esse iPad posso pesquisar em menos de 6 segundos a resposta”.

Como professora de tricô, vejo essa cena se repetir diariamente. Convivo com pessoas que nunca aprenderam nenhuma técnica manual, assim como mulheres que acabaram de aprenderam que tudo é possível virtualmente. São avós, mães e filhas que se distanciaram em conhecimentos duplamente necessários hoje: o manual e o virtual.

Nossas mães foram as feministas que invadiram o mercado de trabalho, investiram na carreira e nos estudos e nos desejaram o mesmo. Elas não só abandonaram os conhecimento domésticos e as técnicas manuais, como tampouco tiveram tempo ou paciência para nos ensinar. Esqueceram de ver a liberdade que existe dentro de tudo isso.

Nós somos a geração que não teme um botão. Entendemos as atualizações de todos os programas que utilizamos no dia-a-dia, nossa organização vem de aplicativos, nossas conversas são virtuais. Criamos um mundo que muitos pais nunca entenderam bem. Afinal, não tivemos tempo, nem paciência para ensiná-los.

Aquela paciência que ambas as gerações não tiveram para passar seus conhecimentos parece ressurgir em momentos gostosos e esquecidos, como um chá da tarde ou assistir um programa de TV a duas. O distanciamento antes existente parece ter criado essa necessidade de convivência, uma vez que as gerações se encontram. O sociólogo tcheco Vilém Flusser cita, em seu livro de 1972, O Mundo Codificado, que a tecnologia pode nos afastar da natureza, mas é ela que vai nos aproximar dela novamente. E é nesses momentos que começamos a sentir nossos primeiros instintos de convivência familiar aflorando.”

Indicação de leitura de tricô: “Bordados”, um quadrinho de Marjane Satrapi.

Anúncios

4 Respostas para “Tricô: um caminho para a independência”

  1. Priscila Abreu

    LInda a entrevista!Não tricoto mas me aventuro no mundo do craft com algumas costurices!
    Beijos!

  2. Mariana Lima Pereira

    Amei a entrevista! Fez lembrar de mim e da minha mãe, apaixonadas por essa arte que é o tricô. Obrigada por compartilhar o relato da Cristiane 🙂

    “Bordados” é incrível. Tem um filme, “Colcha de retalhos”, que acho que tem tudo a ver com o tema do post também.

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: