Um “obrigada” da Chega de Fiu Fiu

chegadefiufiu600x400

Dez dias atrás, escrevemos que o assédio sexual em vias públicas era uma não-questão, um monstro invisível. Não poderíamos mais dizer o mesmo hoje. O assunto virou tema de debate em todo o país – em jornais, na internet, em programas de rádio e televisão. A violência verbal e física que as mulheres sofrem nas ruas passou de algo “natural” ou que “faz parte” para um problema a ser combatido por toda a sociedade.

Em 9 de setembro, divulgamos uma pesquisa com 7762 participantes, na qual 99,6% afirmou já terem sido  assediadas. Não era um estudo acadêmico, elaborado nos moldes tradicionais das universidades brasileiras. Mas havia sim uma metodologia consistente, que permitia tirar conclusões sobre como é feito o assédio no Brasil e que impacto ele tem sobre suas vítimas. Com um número tão grande de respostas, virou um retrato detalhado – e até assustador – da extensão do problema entre as mulheres brasileiras. Mais de 83% das mulheres afirmaram não gostar desse assédio. A maioria sentia medo de se defender, e muitas eram ofendidas ainda mais ao tentar fazê-lo.

A pesquisa tinha a pretensão de ser apenas uma luz sobre um problema – uma primeira exploração em um território ignorado. Acabou virando o estopim de algo muito maior. Nas cinco primeiras horas no ar, os resultados foram compartilhados por mais de 10 mil pessoas. Nesse mesmo dia, tivemos mais de 140 mil visualizações no Think Olga. Nos dias seguintes, centenas de milhares de pessoas compartilharam os resultados, ampliaram o debate, trouxeram novos depoimentos, agregaram informações e teorias, fizeram pontes com outros temas. Mais do que isso, abraçaram essa causa esquecida, mas tão importante. O resultado é que agora a campanha “Chega de Fiu Fiu” é apenas uma pequena parte de um movimento muito amplo direcionado a trazer dignidade à qualquer mulher que caminhe pelas ruas – não importa onde esteja ou a roupa que use.

Recebemos relatos surpreendentes. De mulheres que sofrem abusos terríveis, que passam por constrangimentos todos os dias, e não sabem o que fazer a respeito. Algumas contavam sua história pela primeira vez. Muitas culpavam a si mesmas pelo que aconteceu. Outras pediam ajuda para tentar fazer justiça. Havia também aquelas que ajudavam as demais com mensagens de coragem: “não desista, não abaixe a cabeça, você não é a culpada”.

Muitos homens também contaram a sua história. Alguns sequer sabiam que esse era um problema. Afirmavam já ter assediado mulheres, mas sem terem se dado conta do mal que causavam. Demonstravam-se arrependidos. Outros relatavam também terem sofrido assédio – tanto na rua quanto no trabalho. Nesse caso, não sentiam o medo da violência, mas mostravam-se também incomodados com o desrespeito.

E, claro, como acontece em qualquer tentativa de mudar a situação, nós e as pessoas que lutávamos contra o assédio fomos bastante atacadas. Recebemos ofensas e ameaças de violência. Inventaram interesses ocultos nos números que apenas coletamos e divulgamos na íntegra. Para alguns, estávamos tentando acabar com qualquer tipo de proximidade entre homens e mulheres. Mas existe um limite bastante claro entre um flerte saudável e uma agressão verbal e é muito bom que estejamos finalmente discutindo essa diferença.

A campanha Chega de Fiu Fiu não acaba aqui. Temos outras ações programadas, e agora com a certeza de que não estamos sozinhas nesse caminho. Agradeço às quase 8 mil mulheres que responderam nosso questionário e às muitas outras que, corajosamente, se engajaram no assunto e criaram sua própria luta na busca por mudanças e respeito. E aos homens que também estão se dispondo a inventar uma sociedade em que todos possam interagir de maneira respeitosa.

Anúncios

4 Respostas para “Um “obrigada” da Chega de Fiu Fiu”

  1. Josi

    Receberam ameaça de violência em função da campanha?
    Céus! Todos os dias eu descubro que as pessoas estão mais doentes do que eu imaginava.

  2. Iris R

    É isso mesmo, quando vamos contra a maré tem sempre uns panacas que dizem que estamos erradxs, que o certo é o modelo que sempre existiu. Conte com minha ajuda pra tocar o barco na direção do debate

  3. Carol Froes

    Me arrepiei. Muito obrigada por compartilhar essa pesquisa, por encorajar e fortalecer a discussão desse assunto. A partir do “Chega de Fiu Fiu” descobri o Think Olga, o que já foi uma grande felicidade pelo conteúdo e por tanto cuidado e dedicação em tratar, abordar, aprofundar assuntos interessantes às mulheres. Engraçado lembrar, agora, que a partir da pesquisa eu também passei a conversar sobre isso com outras pessoas, coisa que antes eu quase não fazia, e me senti segura pra fazê-lo. É importante saber e lembrar sempre que essa é uma luta de todas, não de poucas – ainda que poucas saibam disso. Parabéns pela iniciativa, realmente “é preciso ter coragem para ser mulher, para viver como uma, para escrever sobre elas”. Ainda bem que cada vez mais o número de corajosas e corajosos aumenta. Viva! 😉

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: