Você gosta de pornô?

olga pornografia

Eu poderia começar esse texto afirmando que toda mulher consome alguma forma de pornografia – literária ou visual. Eu poderia dizer que, no início da adolescência, assim como eu, toda mulher teve curiosidade de ver um homem pelado ou uma mulher pelada e deu um jeito de encontrar imagens na internet ou até mesmo pedir pra uma amiga mais velha comprar na banca um exemplar da Revista G ou Playboy. Poderia dizer que muitas têm coleções de pornô no computador, e que algumas têm até atores e atrizes preferidos.

Mas se eu me baseasse nas (não) conversas que tive com minhas amigas, eu não poderia dizer nada disso, é verdade. Sendo mulher, minha experiência mostra que mulher vendo pornografia ainda é um tabu enorme, dessas coisas que você não menciona até por medo de constranger a interlocutora. Entre minhas amigas mais próximas, gente com quem eu cresci, demoramos anos pra sequer tocar no assunto e descobrir que sim, todas víamos pornografia ocasionalmente.

Não deveria ser uma surpresa:

  • Uma pesquisa feita em 2012 pelo instituto Nielsen/Net Ratings aponta que um terço dos visitantes de sites pornô são mulheres;
  • Outra, feita pelo tablóide The Sun, diz que 66% das mulheres consomem pornografia;
  • Uma pesquisa conduzida na Universidade de Amsterdam (e mostrada com detalhes nesse documentário aqui) apontou que mulheres são estimuladas fisicamente por filme pornôs tanto quanto os homens – o estímulo é percebido pelo cérebro e envia sangue para as paredes vaginais antes que a participante do estudo sequer relatasse uma auto-percepção de excitação sexual.

Além disso, antes de escrever esse texto, eu fiz uma pesquisa informal no Facebook entre quase 3 mil pessoas. E muitas das mulheres deram o passo a frente pra dizer que, sim, viam pornografia.

Se você é mulher, no entanto, sabe que entre nós a regra é dizer que tem nojo de pornografia ou falar sobre o tema de maneira ligeiramente evasiva, distante (isso não rola só na vida offline: no Facebook, muitas moças que responderam às minhas perguntas optaram por esse caminho).

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Claro que há mulheres que não gostam pornografia e pronto. Mas como as mesas de bar destoam dos resultados das pesquisas, fica meio claro que muitas de nós têm mesmo receio em admitir esse tipo de coisa, mesmo pras pessoas mais próximas. Pra começar, pornografia feminina arranha outro assunto mais vilanizado ainda, a masturbação feminina. Depois disso, vem o medo de parecer “promíscua” – quando você é mulher, não pode sair por aí dizendo que gosta de sexo, mesmo entre outras mulheres. E isso não mudou tanto quanto gostaríamos depois do famoso 50 Tons de Cinza. Ainda que o livro tenha trazido à tona esses temas, no fim das contas, o texto ruim e as ideias erradas (não há outra expressão, desculpem) da autora sobre BDSM acabaram ofuscando o papel dele em permitir que mulheres no mundo todo falassem abertamente sobre sua sexualidade pela primeira vez. Aliás, muita gente que se diz tolerante ficou chocada com isso – você deve ter ouvido coisas como “como assim, um livro desse na livraria do lado de Harry Potter?”. Curioso que ninguém se choque ao ver a Playboy ao lado da Recreio na banca de jornal.

A pornografia tradicional é mesmo meio… esquisita pra algumas de nós (pra alguns homens também, de acordo com a minha pesquisa informal no Facebook, embora fiquem constrangidos em admitir). Algumas mulheres disseram não se empolgar diante de cenas (e gemidos) que parecem forçadas, além de frequentemente objetificarem a mulher e mostrarem a relação de maneira unilateral, com enfoque no prazer do homem. Mas outra coisa a se levar em conta é que a sexualidade é um tema tão complexo que há mulheres que gostam de filmes pornôs justamente por isso.

Outra crítica diz respeito aos padrões sexuais irreais impostos pela pornografia. Segundo essas, há meninos (e, agora a gente sabe, meninas) crescendo com uma noção absurda do que é uma relação sexual. Na cabeça desses jovens, o mundo é um lugar em que mulheres gozam, sexo anal é fácil de fazer e todo mundo está lindo, maquiado, bronzeado, sarado e sem uma gota do suor durante o sexo. Tudo por causa da pornografia, a vilã.

É a esses críticos que eu quero apresentar James Deen:

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O ator pornô que ficou famoso por estrelar The Canyons ao lado de Lindsay Lohan tem um vasto público feminino (oi, eu inclusa). Sensação no Tumblr (procure “James Deen” na busca, mas não no trabalho), Deen ganhou uma réplica de borracha de seu pênis em forma de vibrador que é best-seller em sex-shops (é sério!), tem um blog e um Twitter. Ele é o primeiro astro pornô popstar do nosso milênio, e mais impressionante ainda é que suas fãs sejam mulheres. Por essa ninguém esperava – mulheres gostarem de pornô, ok, mas tornarem um ator um popstar?

Quem já viu qualquer cena de Deen entende porque ele é considerado o bastião do tal female-friendly porn: James Deen faz sexo de verdade na frente da câmera. É tão simples quanto deveria ser. A linguagem corporal, as posição, os gestos, tudo é assustadoramente real e direcionado à mulher na cena, e isso é transparente para quem assiste. Deen é um ator pornô na acepção da palavra “ator” ao não deixar dúvida de que ele está realmente vivendo as cenas que faz.

E apesar de ele já ter dito que essa dedicação a cada uma das atrizes com quem filma é real e consciente, ele nega o rótulo de que faça filme pornô para mulheres. Em uma entrevista, Deen disse acreditar que a expressão ‘pornô para mulheres’ só reenforça os esterótipos de gênero:

“Minha teoria sobre pornô para mulheres é que é só pornô. Por que há pornô declaradamente dedicado a mulheres? Ao dizer que é necessário existir um gênero de pornografia exclusivo para mulheres, você basicamente isola as mulheres como um gênero, e diz ‘É assim que as mulheres devem pensar, é assim que a sexualidade delas deve ser.’ É contraprodutivo, da maneira que eu entendo, ao movimento de igualdade. Quem disse que a visão de uma única mulher sobre a sexualidade é o jeito certo de pensar? Uma mulher pode gostar de ver um filme com uma produção incrível e cenas de sexo bem filmadas. Outra pode gostar de BDSM com tapas e degradação – e nada disso é certo ou errado. Pornografia é feita para que pessoas descubram o que gostam, o que as deixa com tesão. Não há pesquisas de mercado sobre isso porque a sexualidade está sempre se desenvolvendo, crescendo e evoluindo. Você poderia falar com um milhão de pessoas sobre o que elas gostam em um pornô, e você iria obter um milhão de respostas diferentes sobre o que aquelas pessoas gostariam de ver em um pornô naquele determinado momento.”

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Quanto mais mulheres falarem livremente sobre pornografia, mais o mercado desse tipo de produto vai se diversificar pra atender a desejos mais diversos, incluindo os das mulheres. Como Deen disse, é provavelmente impossível e certamente burro formatar uma produção para mulheres, tanto quanto seria fazer uma para homens, porque mulheres não são definidas por uma sexualidade única.

E ele tem razão, já que essa onda que é chamada de “pornografia feminina” já está trazendo pras produções atores e atrizes menos pasteurizados e mais parecidos comigo e com você, com tamanhos e formatos diferentes de barrigas, peitos, bundas e pênis, estéticas de filmagem mais diversas e ousadas e, por fim, cenas de sexo com as quais mais gente possa se identificar, seja lá o que isso signifique pra você, pra mim ou pro seu vizinho. E todo mundo que gosta de pornografia, seja lá de qual tipo for, só tem a ganhar com isso.

E você, assiste pornô?


Ana Freitas é jornalista. Escreve pra revista Galileu, é dona do Olhômetro e usa o Facebook para fazer pesquisas informais sobre sexualidade feminina, postar fotos de papagaios que usam moletom, entre outras coisas.

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15 Respostas para “Você gosta de pornô?”

  1. André Falcão

    No geral acho que a utopia do pornô seria aquela em que todos os envolvidos só se metem nos seus fetiches. Realmente, existe gente que gosta de bater. Existe quem gosta de apanhar. Existe gente que tem tesão de verdade pela parte passiva do anal, e isso é só uma lista bem vanilla.

    O grande problema é essa indústria tentando aumentar a gama de filmes extremos e impedindo uma gama maior de fetiches.

    A cada 7 minutos finalizam um pornô. Nem que eu quisesse eu conseguiria assistir tudo isso, seria interessante que com tanta produção víssemos mais fetiches, e de preferência mais fetiches femininos, porque nada mais irritante no mundo que não satisfazer sua parceira.

  2. Marina Amante (@marinaamante)

    Gostei do texto! Eu particularmente adoro pornô, não só por excitar mas também como forma de entretenimento, acabo me divertindo com as bizarrices e cenas mal feitas, mas ao contrario também acho que é algo que deve ser levado a sério.

    Não ligo de comentar sobre isso em conversas até mesmo com homens na mesa, porém sempre tem alguns que pensam que só porque eu gosto de tipo de coisa eu sou uma safada e saio dando pra todo mundo, costumo ficar com vergonha quanto a isso porém prefiro ignorar esse tipo de pensamento.

    A questão do pornô feminino não é só algo que envolva o pornô mas tudo, o machismo está muito inserido nisso e acaba influenciando o modo como as pessoas até mesmo fazem sexo e o modo como acham que devem ser colocados nos filmes pornôs! Ainda bem que estamos conseguindo mudar certo tipo de pensamento e hoje em dia entendemos muito bem que não é por ai…

    Eu espero que esse “tabu” se quebre logo e que as pessoas sejam menos ignorantes e antes de criticar saibam debater os assuntos em si. Utopia? Prefiro pelo menos acreditar que isso um dia muda, mesmo estando cada vez mais difícil!

  3. Amanda Bernardes

    Gente, que homem esse James Deen! O.o Jesusmariavirgedocéu!

    Enfim, eu amo sexo, mas não costumo gostar de pornô pq eu costumo achar a maneira de fazer sexo esquisita, com posições estranhas só pra dar visibilidade e totalmente focada no prazer do homem (penetração rápida, pouco contato entre os corpos, poucos beijos, homem comandando, etc.). Acho muito deseducativo e perigoso, pq as pessoas aprendem que sexo é assim. Além disso, raramente os atores homens são bonitos (fora esse pitéu aí).

    Além disso, eu gosto quando o sexo evolui de algo que existe. Tipo, adoraria que misturassem filmes e séries com sexo de verdade, em vez de cortarem quando começa. Por exemplo, que no Orange is the New Black as protagonistas filmassem uma cena de sexo inteira, em vez de cortar. Eu bateria siririca doidamente pra isso.

  4. Dona Coelha (@dona_coelha)

    Excelente texto sobre o pornô e as mulheres. James Deen realmente tem um ponto em relação ao pornô para as mulheres, mas acredito que toda a discussão e produção sobre o tema é válida, até porque como ele mesmo levanta, o pornô também serve para as pessoas descobrirem do que gostam!

  5. Rodolfo Almeida

    Boa postagem, pornografia é outro debate que mesmo dentro do feminismo não tem muito espaço ou tem de uma forma extremamente preto-no-branco.
    Queria ler o que o blog tem a dizer sobre o tipo de feminismo que atrizes como Sasha Grey e afins militam (ou não). E outra, tem um site chamado X-Art que meio que quebra a estética padrão dos filmes pornô, apesar de ainda ser só com gente bonita, cheirosa e limpinha.

    • Rodrigo Leal da Silva

      Muito obrigado, Ana Freitas, por abrir um respiro nessa second wave atrasada e moralista que temos vivido em termos de feminismo no Brasil!!! Excelente texto, abre para um ótimo debate, sem preconceitos de nenhuma espécie.

    • Amanda Bernardes

      Ué, não concordo que é tratado como preto no branco, não. É super comum a discussão sobre erotismo, submissão, utilização ativa dos espaços da pornografia e tal. Tem posição feminista pra tudo o que é lado.

  6. Sybylla

    Admito que estou um pouco surpresa por saber que James Deen é um ídolo entre as mulheres, pois já me deparei com alguns vídeos dele em que a mulher é tratada como um trapo com dois buracos. De dar tapa na cara, jogar no chão e pisar na cara.

    Se essa é a fantasia de alguém e se estão de acordo, poxa, divirtam-se. A própria mulher que está se submetendo àquela cena também precisa estar de acordo.

    Mas ele é o tipo de cara que não me parece ser um ídolo. Vejo que a maioria das produções ainda são feitas para homens, portanto o papel da mulher é passivo, daquelas que aguentam 90 minutos de anal.

    Quem quiser uma coisa mais verossímil pode encontrar pelas tags Real Sex, Real sex cene, coisas do tipo, que são uma produção mais voltada para a experiência do casal em si, com beijo na boca, com roupas pelo chão, algo mais real mesmo.

    Deen tem razão ao dizer que “mulheres não são definidas por uma sexualidade única”, porém acho que ele peca ao dizer que não existe uma produção voltada para o homem. Ela é e desde sempre foi voltada para o prazer masculino. Não é de se estranhar que as cenas de oral nas mulheres se limitem, muitas vezes, a meia dúzia de lambidelas no grelo, enquanto o oral no homem leve ao menos dez minutos. E eu também não conheço nenhuma mulher que goste de levar tapas nos seios, como em geral acontecem nesses vídeos.

    E concordo, quanto mais as mulheres falarem sobre pornografia, mais o mercado se voltará a fazer algo aproximando do real, sem tantos estereótipos negativos, sem tanta preocupação com o prazer masculino.

    Abraço! 😀

    • Erick Massa Sprengel (@ErickSprengel)

      Sybylla, já conversei “indiretamente” com amigos sobre o tipo de conteúdo pornô que consomem. A conversa era sobre as palavras-chaves ao buscar e destacou-se facilmente “amauter”, “namorada” e semelhantes…
      O que senti é que no meu grupo de amigos, pornografia deve ser algo natural, algo semelhante com a experiência própria. Seria a pornografia que vocês chamam de “feminina”.
      Acredito que cada tipo de pornografia tenha uma dominância maior de homens ou mulheres, mas no fundo não acho muito legal essa classificação em “pornô” e “pornô feminino”….
      Em outras palavras… eu não acho que faz sentido eu chamar de “pornô feminino” o tipo de pornô que eu homem heterossexual curto…. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

      • Sybylla

        Já eu não vejo problema nenhum em vc gostar de um pornô “mais feminino” e não entendi o porque das risadas. Você não vai deixar de ser homem ou heterossexual por causa disso.

        Amateur não significa real sex. Pois ele pode conter uma cena digna de um porn norte-americano e ainda assim não representar o sexo real ou o cotidiano.

        O que eu disse no comentário, e que é verdade, é que o pornô é e sempre foi feito para homens. Basta ver a pouca preocupação pelo prazer da parceira na grande maioria dos vídeos. E somente há pouco tempo, poucos anos, com as mulheres experimentando cada vez mais sua sexualidade, que o interesse da parte dela por pornô aumentou.

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