Pelo direito de ser imperfeita

olga perfeicao

Eu não sou perfeita, é óbvio. O que não é tão óbvio assim é o fato de eu não poder viver a minha imperfeição. Ela incomoda demais. Não a mim, mas aos outros. E quem me fez perceber isso foi a TV a cabo, mãe de todas as procrastinações, a quem me rendi em um dia de concentração zero. Ali, assisti a dois filmes seguidos que me fizeram recordar de um dos meus maiores sonhos de infância: nascer menino. O motivo? Poder viver dentro do gênero que não só permite a imperfeição, como estimula e abraça falhas. Enquanto menina, só me foi apresentada a necessidade de ser pura, elegante, direita… Impecável.

Primeiro foi Valente, animação da Disney que conta a história da princesa Merida. Por preferir caçar de arco e flecha na floresta a e ganhar um sapato de cristal, Merida é vista como rebelde. Tal concepção, propositalmente desacertada, é o centro de um roteiro infantil que nos traz enfim uma protagonista feminina mais real. Tem cabelos bagunçados, postura desajeitada e nenhuma paciência para caber em vestidos apertados. Mas uma princesa não pode viver assim – “e nem rir, pular, correr, gritar”, já avisa sua mãe, a rainha. Merida tem três irmãos mais novos que tocam o terror no reinado. Neles, enxerga a liberdade que gostaria de ter. “Meus irmão se livram de todas as broncas”, diz. “Já eu, não me livro de nenhuma.”

Parece apenas mais um conto de criança, que acontece em castelos de animações Disney e não na sala de estar de nossas casas ou nas pré-escolas por aí. Mas não é verdade. A “maldição da princesa” é repassada para meninas até hoje. Para ganhar a coroa imaginária, aprendemos o nosso lugar, no pedestal, e ali permanecemos imóveis, mudas, delicadas, discretas… Dolorosamente perfeitas. Aprendemos a cruzar as pernas quando sentadas muito antes de entendermos o significado de uma vagina e que um quarto bagunçado não é coisa de “mocinha”. O “não é coisa de mocinha”, por sinal, nos acompanha pela vida, determinando as escolhas das nossas roupas, delimitando nossas experiências com a sexualidade, moderando nossa forma de trabalhar e gerenciar equipes, refreando a maneira como expomos nossas opiniões em grupos…

Em seguida, vi Ruby Sparks. O longa mostra a trajetória de um brilhante, mas solitário escritor que se apaixona por uma de suas personagens fictícias. No filme, uma cena de quase 5 segundos, bastante insignificante ao plot, me fez viajar. O escritor, também bastante atrapalhado, não checa as mensagens do agente, que informava sobre um evento que celebraria seu livro de estreia. Ele aparece atrasado e maltrapilho. No fim da apresentação, reclama: “Eu poderia ter me vestido melhor…”. É quando seu agente responde sem hesitar: “você é um gênio, ninguém vai ligar para a sua aparência”. Uau! Uma verdade – e uma gigantesca regalia – dirigida exclusivamente aos homens.

Independente da genialidade de uma mulher – ou da sua força, influência, conquistas, poder – ela sempre será passível de críticas, principalmente quando se trata de seu visual. Nem a presidenta Dilma, nem a chanceler alemã Angela Merkel, no topo da cadeia política escapam de análises fúteis e irrelevantes sobre suas preferências de moda e beleza. “Ao escolher um aspecto de qualquer candidata mulher para criticar, reflita se você escolheria criticar a mesma coisa num candidato homem. Não parece meio imbecil gostar ou desgostar de Serra ‘porque ele é careca’? Então por que a estética serviria para gostar ou desgostar de uma candidata mulher?”, escreveu Marília Moschkovich, no post Entre Dilma e Marina, Escolha Não Ser Machista.

Já este artigo, realizado em 2007, fala sobre como a forma que mulheres empreendedoras, líderes e presidente de empresas, são retratadas em revistas especializadas. É feita uma comparação entre as publicações Fortune e Exame. A primeira, norte-americana, traz perfis focados no histórico profissional. “As descrições, sem excessos narrativos, consagra o sujeito feminino como empresária eficiente”, relatam as autoras. Já a Exame traz narrativas com histórias pessoas, citações de moda e beleza, referências à maternidade e os cuidados da casa. “Ou seja, ao assumirem postos de comando nas corporações, estas ‘extraordinárias’ ganharam civilização, sem deixar de lado, entretanto, os aspectos castos da sua própria natureza.”

Vale a pena conferir a pesquisa e os exemplos de matérias que ele traz. Quando a Exame fala de Luiza Trajano, quem comanda a rede de lojas Magazine Luiza, faz questão de ressaltar que durante a entrevista ela usava branco, pérolas, que sua voz é suave e seus gestos, delicados. Ieda Correia Gomes, na época presidente da Comgás, ganhou a seguinte descrição no perfil: “metida numa calça jeans e uma blusa decotada estampadinha de flores, essa baiana de 43 anos…”. Pode parecer inofensivo – pois estamos acostumadas a ler ou até mesmo propagar essas alegorias – mas a verdade é que a ideia de empresária da Exame “lembra à mulher o seu lugar tradicional social, o de esposa e mãe”. Aquele imóvel e corretinho, o pedestal. 

a INSURREIção da imperfeição

“Será que as mulheres vão ter, um dia, a liberdade de serem feias?”, pergunta uma matéria do Jezebel. O NY Times trouxe a mesma reflexão, em meados de outubro, com o texto A New Image of Female Authenticity: “Já é possível detectar uma iconografia feminina mais realista, grotesca e defeituosa – de coxas largas e sexualidade nada sexy. De infinita maneiras, mulheres estão clamando por uma liberdade já desfrutada há tempos pelos homens: o direito de ser feia também”. O “feia” em ambas ocasiões, no entanto, poderia ser substituído por “humana”, termo mais simples e direto, já que acho que não estamos (e nem deveríamos) falar apenas de aparência. 

No texto, há alguns exemplos de mulheres famosas que estão conseguindo quebrar essa expectativa da perfeição. E por elas o fazerem debaixo das luzes dos holofotes, um dos lugares mais duros e exigentes com as mulheres, é ainda mais notável. Como a diretora e atriz Lena Dunham, que subverte a noção de feminilidade simplesmente por não se importar com seu peso, com as roupas que escolhe, com sua beleza. “Quando ela joga ping-pong com os peitos de fora, claramente ela não está tentando tentando atingir os homens como público-alvo. Ela faz essa cena APESAR deles”, escreve Anand Giridharadas, no NY Times. “E o infame twerking de Miley Cyrus (…) foi uma performance nada bonita sexualmente que era mais algo vindo dela mesma do que feito PARA alguém.”

Com essas pequenas transgressões ou ações que os críticos consideram de mau gosto, essas mulheres estão apenas lutando pelo direito de serem tão estranhas e imperfeitas quanto qualquer um dos grandes atores, escritores ou gênios homens. Estão criando cenas que elas mesmas gostam, e descartando a opinião em relação ao que se espera delas. Como bem li outro dia por aí: nada mais radical para uma mulher do que sair de casa com o cabelo despenteado.

Ilustração: Leah Goren

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6 Respostas para “Pelo direito de ser imperfeita”

  1. Boris Greenland

    oi, gostei do texto e entendo seu ponto de vista, mas voce se engana em muitas coisas a respeito de ser homem. voce supoe que é sempre uma vantagem e que nós que somos livres, mas voce está redondamente enganada. eu sempre me senti como homem, da mesma maneira que voce se sente como mulher, preso dentre padrões de genero sufocantes e muitas vezes desejei ter nascido mulher, pois creio que me encaixaria melhor. sou sensivel, emocionalmente vulneravel, vaidoso, careço de iniciativa e macheza completamente (e sou hétero ainda por cima…). Nao sinto liberdade alguma em ser homem, o genero masculino é totalmente restritivo em expressar qualquer coisa que não seja macheza. o homem tem que ser corajoso, decidido, imponente, masculo e etc…de uma forma diferente temos a nossa forma de perfeiçao e não temos direito de ser imperfeitos tb. fala-se que o homem tem mais liberdade sexual, só que não existe liberdade sexual para homens como eu, pois as mulheres nem notam que existimos, eu sou virgem ainda aos 25 anos, e eu me considero bonito. e sei que existem muitos por ai como eu. creio que deveríamos nos unir mais pra lutar contra os padrões de gênero e não ficar nos cutucando dizendo que o outro tem mais regalias…é isso
    Abraços

  2. Daniela Miranda

    Sabe, pelo menos no Brasil, eu considero que o excesso de vaidade e cuidado pessoal têm muito a ver com carência de toque, de atenção e com a possibilidade de nos darmos ao luxo de pagar a alguém para cuidar de nós.

    Eu vejo os salões como um lugar de terapia de grupo. Recebemos carinho nos cabelos, toque nas mãos e pés, recebemos palavras amigas, damos conselhos, damos muita risadas, fazemos boas amizades, desabafamos. Acredito que isso nos faz mais felizes do que o fato em si de sairmos dali impecáveis. É todo um processo.

    O problema é ser escravo da imagem que se cria, se sentir na obrigação de estar produzida o tempo todo. É gastar tudo o que tem e o que não tem em prol disso.

  3. Josiane Paganini

    Os artigos do Think Olga sempre me fazem parar para refletir. Cada dia que passa tenho me observado mais como mulher e como quero exercer minha liberdade. Essa matéria me fez pensar no quero ensinar para minha futura filha ou filho. E me ajudou a perceber o quão bom é ser imperfeita, ou melhor humana.

  4. Robson Ortz

    Adorei a matéria… Uma abordagem completa, com referenciais interessantes, que envolve nosso cotidiano. Realmente é frustrante, para qualquer pessoa de bom senso, notar essa latente e velada idiossincrasia de submissão feminina, mesmo após tanto desenvolvimento social e tecnológico (o que caracteriza uma “sociedade moderna”). Olga está de PARABENS! Acabou de ganhar um leitor!

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