Futebol: a melhor defesa é o ataque

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É 2014, ano de Copa de Mundo no Brasil, ano em que finalmente o racismo começa a ser tratado com a devida atenção no futebol. Infelizmente, ainda não se pode dizer o mesmo sobre a misoginia, o machismo e o androcentrismo. E o futebol sabe transitar entre estes últimos três como poucos (sem falar na homofobia).
Há oito anos, comecei minha trajetória como jornalista esportiva. Já passei por estádios onde não havia banheiro feminino, já ouvi torcidas de cidades do interior me chamarem de nomes nada legais apenas por eu ser a única mulher com um microfone na mão à beira do campo, já deixei de fazer uma cobertura no exterior aos 20 e poucos anos porque acharam que eu “não saberia me virar” (Oi? Eu viajo sozinha pelo mundo desde os 16).
Nos últimos tempos, acabei me voltando também para o uso das redes sociais e as estratégias digitais no futebol. Sempre usei a Heineken como um ótimo exemplo de criatividade para ações que unem on e offline. Estava indo bem, a Heineken. Até esta semana. A marca de cerveja lançou uma campanha em conjunto com a Shoestock para fazer uma liquidação de sapatos exatamente na hora da final da Champions League, que acontece neste sábado, na pegada “uhu, vamos ajudar sua mulher a te deixar livrinho para o jogo”.
Os pressupostos dos quais partem essa campanha são todos de chorar, a começar pela assunção de que “sua mulher não gosta de futebol”. Pode ser que não fosse permitido a ela desenvolver esse gosto (assim como pela engenharia e pela calça comprida) lá em 1950, mas a campanha foi lançada nesta semana, mesmo. 2014.
Nestes anos de trabalho com futebol e automobilismo, sempre senti que faltava, para mim, um espaço onde eu pudesse falar sobre estas experiências (são normais? Como lidar?), onde eu pudesse conhecer outras mulheres que passam pelo mesmo que eu e compartilham a paixão por futebol. É muito comum o estado de negação. Passei bons anos achando que “não, imagina, eu nunca tinha passado por nenhuma experiência de machismo”. Aham. Foi só o tempo e um pouco mais de maturidade que me fizeram enxergar, para poder lidar de uma forma mais realista e mais proveitosa.
Pensando nisso, em conjunto com as mulheres incríveis da Casa de Lua, é que resolvemos promover a roda de conversa “Mulheres no Futebol: jogando, torcendo, cobrindo” na próxima segunda-feira, dia 26, às 20h lá mesmo na casa (Rua Engenheiro Francisco de Azevedo, 216, metrô Vila Madalena – São Paulo). Você pode confirmar presença e chamar mais gente através do evento no Facebook.
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Vanessa Ruiz é jornalista com passagens por rádio, revista e web, sempre transitando entre o Esporte e temas transversais. 

Arte: Mark Brooks e Nayara Perone
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