A pornografia e o feminismo

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“Eu nunca tive um orgasmo”. Quando eu tinha 18 anos, uma amiga me contou isso. Na época, uma Gabriela fã de carteirinha da Sue Johanson ficou em choque. “Como assim nunca teve um orgasmo? Tu nunca te masturbou??” – ênfase no sotaque gaúcho carregadíssimo de Santa Maria.

A resposta dela fez todo sentido: “não, nunca me toquei”. Ela dizia que até alguns anos atrás achava “nojento”, que era uma “guria de respeito” e que quando teve vontade mesmo, o bloqueio já era muito grande. Que conselho eu podia dar à minha amiga na época? “Assista a um filme pornô”? Nem eu assistia, a pornografia nunca me deu um pingo de tesão, com humilhações, depilações exageradas, fantasias que nunca foram as minhas e uma boa dose de violência. Tenho certeza de que há várias meninas como ela por aí, com nojo e vergonha da própria vagina e sem qualquer consciência do próprio corpo, muito menos do que lhes dá prazer. E isso tem tudo a ver com opressão a mulheres e pornografia mainstream.

Muitas feministas são antipornografia. Como dizia a feminista Robin Morgan: “a pornografia é a teoria; o estupro é a prática.” Há bons argumentos nessa linha feminista, como o fato de que é uma indústria que existe somente para fazer dinheiro, que mastiga e cospe as mulheres e mostra violência, assédio e ofensas como algo  aceitável e parte da sexualidade masculina. Dizem que a pornografia promove padrões de beleza misóginos e que afeta a todos porque influencia a forma como homens veem mulheres. “A pornografia mainstream heterossexual dita uma ideia estreita e limitada do que é a sexualidade humana. Na pornografia, a sexualidade masculina pressupõe crueldade, coerção e degradação e a feminina como submissa ou aparentemente apreciadora de um tratamento cruel, coercitivo e degradante. A pornografia anula as necessidades sexuais das mulheres e dificulta a descoberta de seus próprios corpos e sua sexualidade”, diz um blog americano de feministas antipornografia.

Vamos falar sobre alguns fatos da indústria pornográfica que fazem com que muitas feministas se oponham à pornografia. É um negócio bilionário, centralizado na Califórnia, onde fica 90% da produção mundial, dirigido e produzido por homens e voltado ao prazer masculino através da dominação. Sabe-se que 80% das sobreviventes do tráfico de pessoas relatam que seus algozes usaram a pornografia para mostrar a elas como deveriam se comportar em seu estado de escravos sexuais. Muitas vezes, essas vítimas também são fotografadas e filmadas para a indústria pornô, a fim de multiplicar o ganho de seus sequestradores. Além disso, muitas atrizes pornôs relataram situações análogas ao tráfico humano e/ou à escravidão sexual. Uma delas é Linda Lovelace, famosa pela sua atuação em Garganta Profunda e eternizada como símbolo da revolução sexual dos anos 1970. Só que era tudo uma mentira: na verdade, Linda era torturada, espancada e obrigada sob ameaça de morte a fazer filmes pornográficos por seu marido abusivo Chuck Traynor. Depois de conseguir fugir dele, Linda virou uma ativista antipornografia e relatou os abusos a que foi submetida em uma série de entrevistas até morrer em um acidente de carro em 2002. Um filme sobre sua história foi lançado no ano passado, inclusive. Assista ao trailer:

 

 

Como é um mercado, a competição impera na indústria pornô, e o conteúdo “evolui” para práticas cada vez mais “ousadas”. O gang bang de três caras com uma mulher de repente vira o “extreme gang bang”, com 10, 20, 150 caras. O sexo anal vira rosebud (só dê um Google se tiver estômago). Surgem canais especializados em surras e outras práticas cada vez mais extremas, “extreme isso”, “extreme aquilo”. E assim por diante, com atos cada vez mais violentos e mais destruidores de corpos femininos. Quando eu falo destruidores, não me refiro somente a DSTs e HIV, que já configuram um cenário aterrador, mas a ferimentos graves nos órgãos genitais. No St. James Infirmary, uma clínica criada por trabalhadores da indústria do sexo para trabalhadores da indústria do sexo (inclusive prostitutas e garotos de programa) em São Francisco (Califórnia), reconstituição de vaginas e ânus são procedimentos comuns. Isso sem contar as “ciladas” que estão sempre bombando nos sites pornôs, como a que um cara finge que vai contratar uma funcionária como forma de persuasão para receber sexo oral ou outros serviços. Claro que essas emboscadas não são reais e sim hermeticamente produzidas pela indústria pornô, mas a mensagem de enganar mulheres só pela diversão é transmitida com sucesso.

Nos Estados Unidos, há algumas organizações de proteção a atrizes pornôs. Uma delas é a Pink Cross Foundation, uma instituição de caridade criada por Shelley Lubben, ex-atriz pornô que deixou o ramo após ser infectada pelo vírus da herpes e perder metade do útero. Shelley é uma voz importante no movimento antipornografia americano e sua organização realiza e divulga uma série de pesquisas sobre a vida das atrizes pornôs. Alguns dados apresentados pela organização: a expectativa média de vida de uma estrela pornô é de 36 anos; 208 atores morreram de aids, overdose, suicídio, homicídio ou outras doenças somente em 2014 e 66% desses trabalhadores têm herpes, uma doença sem cura. Entre as lutas, está a aprovação, em 2012, de uma lei que exige o uso de camisinha durante as gravações em Los Angeles. Um ano após a lei, a produção caiu 90% na cidade, e continua diminuindo este ano. Em 2014, uma lei semelhante chegou a ser aprovada no estado da Califórnia, mas ainda enfrenta uma longa batalha no senado para ser mantida. Veja este vídeo produzido por alunos da Universidade de São Paulo sobre o lado obscuro do mundo pornô, com falas de Shelley:

 

 

Mais de 11 milhões de adolescentes assistem a filmes pornôs na internet, e sabemos que educação sexual não é um procedimento padrão em muitos lares e não passa de uma conversa sobre o uso de camisinha em muitas escolas. Segundo a britânica Sociedade Nacional de Prevenção à Crueldade contra Crianças (NSPCC, na sigla em inglês), a pornografia tem um efeito sombrio sobre as crianças e está ligada à proliferação de casos de estupros entre adolescentes. Muitos concordam com essa ideia. Para fazer o documentário “Amor e Sexo na Era da Pornografia”, a pesquisadora Maree Crabbe entrevistou dezenas de jovens sobre suas práticas sexuais e percebeu que muitos deles estavam sendo educados pela pornografia, normalizando comportamentos agressivos. Meninas relataram a Maree que muitas vezes não se sentiam confortáveis com os pedidos de seus parceiros, mas acabavam cedendo pela pressão ou vontade de agradar. Alguém aí lembra daquela cena de Girls em que Adam pede para Hanna rastejar pelo quarto e ejacula em suas costas? Bem por aí. A pornografia pode tornar as mulheres cada vez mais presas a fantasias pornográficas que não são as suas.

Cansada de lidar com esse tipo de postura ao transar com novinhos educados pela pornografia, a empresária americana Cindy Gallop resolveu fazer algo a respeito. “Como uma mulher mais velha, madura, experiente e confiante, eu não tive dificuldade de perceber que uma certa quantidade de reeducação, reabilitação e reorientação era necessária”, disse Cindy em uma TED em 2009 ao lançar a iniciativa Make Love Not Porn (“Faça amor, não faça pornô”, em tradução livre). Basicamente, é um site educativo que mostra as diferenças entre o sexo real e o dos “filmes adultos” através de desenhos e vídeos.

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Traduzindo…”Mundo pornô: homens adoram gozar na cara das mulheres e as mulheres adoram que eles gozem na cara delas. Mundo real: algumas mulheres gostam disso, outras não. Alguns caras gostam disso, outros não. Depende inteiramente da sua escolha.”

Eu adoro como o pesquisador da Universidade de Tel Aviv Ran Gavrieli explica por que parou de consumir pornô em uma TED. Ele fala da necessidade de uma desintoxicação não apenas de nossos corpos através da alimentação, mas de nossa mente. Ran conta ter percebido como ele passou a fantasiar com situações que nunca lhe agradaram de verdade como consequência dos pornôs que via, e como ele observou que a cultura pop utiliza cada vez mais referência pornográficas (cita Lady Gaga e Miley Cyrus), influenciando adolescentes a tirar fotos e vídeos nuas para seduzir seus paqueras e muitas vezes acabam expostas por eles, com vazamentos que terminam em bullying, humilhações incessantes, perseguição, depressão e às vezes até suicídio.

 

 

Apesar de tudo isso, eu não sou uma feminista antipornografia. Eu concordo com o que Wendy McElroy diz no livro XXX: A Woman’s Right to Pornography: “censura ou qualquer repressão sexual inevitavelmente se volta contra as mulheres, especialmente aquelas que querem questionar seus papeis tradicionais. A liberdade de expressão sexual, incluindo a pornografia, cria uma atmosfera de interrogação e exploração. Isso promove a sexualidade das mulheres e sua liberdade”.

Como em todas as áreas dominadas por homens, eu acredito que as mulheres devem tomar seu espaço na pornografia. Por exemplo fazendo pornô feminino, de mulher para mulher, como Erika Lust. A sueca formada em ciências políticas e feminismo na Universidade de Lund, uma das mais prestigiadas da Suécia, criou uma produtora de filmes eróticos vencedores de vários prêmios em festivais, inclusive o Feminist Porn Awards, que é praticamente um movimento em prol do pornô feminista. “É triste dizer isso, mas o sexo ainda é uma questão política”, disse Lust em uma entrevista à Tpm em 2012.

Sim, sexo é político. Michel Foucault já dizia em sua obra História da Sexualidade I que as sexualidades são socialmente construídas. “É pelo sexo, com efeito, ponto imaginário fixado pelo dispositivo da sexualidade, que cada um deve passar para ter acesso à sua própria inteligibilidade (…) à totalidade de seu corpo(…) à sua identidade”. Foucault vê a proliferação de sexualidades como uma extensão de poder. E quando as mulheres fazem pornografia para mulheres, elas tomam o poder para si. Quando uma atriz pornô reflete sobre o próprio trabalho e determina o que quer fazer e como quer fazer, a exemplo de Stoya, Sasha Grey e Mônica Mattos, ela está tomando poder para si mesma (mas vale lembrar que para cada Stoya há centenas de escravas sexuais).

Quando uma mulher se masturba e aprende a ter prazer sozinha, ela também está tomando poder sobre si mesma. Na história, a legitimação da masturbação feminina representou o uso do corpo como luta política, como as moças do Femen usam os seios. Isso ainda não mudou. É preciso se conhecer muito bem para saber o que dá prazer ou não, e para isso é preciso se tocar muito. Também é preciso saber o que gosta ou não para barrar aquele cara educado pelo pornô de tentar fazer coisas que você não quer. Para se impor sexualmente. Para se impor como mulher. E gozar muito. Porque siririca é o poder.

 

* E para quem quiser saber mais sobre pornô para mulheres, recomendo o blog da minha querida amiga Nina Neves, que fez um TCC a respeito.

* Fica para outra hora a discussão sobre como a pornografia mainstream também limita a nossa sexualidade.

IMAGEM: ART BY BlackHeart (Facebook e Instagram)

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