“Como o feminismo mudou a minha vida”

i love feminism

As leitoras da OLGA respondem: Como o feminismo mudou a sua vida?

E, conforme prometido, Jessyca Camila foi sorteada e será premiada com o livro Americanah, da escritora feminista Chimamanda Ngozi Adichie, cuja versão brasileira acaba de ser lançada pela Companhia das Letras.
Agradecemos a todas bravas mulheres que dividiram suas histórias com a gente.

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Eu devia odiar o feminismo. Depois do feminismo, tudo ficou mais difícil. Situações rotineiras e antes automáticas passaram a ser mais difíceis. Toda a minha conduta, meus pensamentos, minhas crenças, meus (pre)conceitos, tudo passou a ser questionado. O riso já não sai mais pra maioria das piadas. A convivência com a família ficou mais difícil. Os namorados perdem a graça fácil. Soube do imenso sofrimento que eu causava a outras pessoas repetindo coisas que pra mim pareciam normais. Hoje tenho preocupação constante em não agravar seu sofrimento e sinto de perto o quão cruel é ser julgado por pessoas que acreditam conhecer a vontade divina. Tive que me afastar de muitas pessoas. Muitas pessoas se afastaram de mim. Passei a me magoar mais com as pessoas que eu amo. Mas, incrivelmente, a cada dia que eu olho pra trás e vejo que tenho trilhado um caminho sem volta, me sinto mais feliz. É impressionante como enxergar a opressão me trouxe a liberdade. Como enxergar as coisas além do meu umbigo e questionar minhas atitudes me trouxe a paz, pois sei que eu posso contribuir positivamente com outras pessoas, mesmo se for só um pouquinho por dia. Eu vou fazer 20 anos nessa sexta feira, e quando eu penso em feminismo só consigo pensar em agradecer por tê-lo descoberto ainda tão jovem. Saber que vou poder fundamentar toda minha vida e minhas relações com as pessoas de forma mais consciente, estruturada em pilares muito importantes que com o feminismo tenho construído, me deixa muito feliz. Escrevo esse pequeno relato bem emocionada, pois sou eternamente grata ao Think Olga por ser o estopim dessa mudança na minha vida, por ser o meu primeiro contato com o feminismo. São as coisas que eu tenho aprendido através do compartilhamento de conteúdo e experiências online que vou levar pra vida toda. — Jessyca Camila

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Fui obrigada a amadurecer muito cedo, pois vivi em um ambiente de violência doméstica. Na infância, essa violência era menos ostensiva, por ser disfarçada de “educação de menina”: como se comportar, que roupas vestir, o que desejar. Na adolescência, quando comecei a questionar as imposições, a violência se tornou evidente e insuportável – toda a tentativa de quebrar os padrões era vista como afronta, e virou rotina escutar que “mulher apanha porque provoca”. Nesse momento, ao entrar em contato com pessoas que trabalhavam com direitos humanos, descobri o feminismo, movimento mudou a minha vida radicalmente: proporcionou força para combater a violência que eu vivenciava e me ensinou a buscar relacionamentos de qualidade. Hoje em dia, convivo com pessoas que me respeitam; escolho melhor as minhas companhias; tenho a chance de construir a minha subjetividade livremente. — Raissa Alencar de Sá Barbosa
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Sou mulher, negra, cabelo crespo, bissexual, tive enormes problemas de autoestima. Sempre me sucumbia diante do machismo. Deixava que todos esses pitaco nas minhas relações. Eu tinha medo de encarar o mundo. Quando o feminismo entrou na minha vida, uma porta se abriu – não que os problemas tivessem acabado. Mas eu havia me encontrado. E me tornado mais forte. Se não fosse o feminismo, eu jamais conseguiria suportar- aquela fatídica vez em que fui estuprada. Se não fosse o feminismo, eu ainda estaria naturalizando todas as reproduções maldosas e opressoras desse sistema. Se não fosse o feminismo, eu não estaria aqui hoje. O feminismo vive em mim. E eu sou grata por isso – Sendo combativa, lutando pelo os meus direitos e pelos os direitos de todas as mulheres — Dayana Pinto
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Em 2010, mudei de cidade para fazer o doutorado. Quase 4 meses depois me vi decidindo seguir com uma gravidez não-planejada. Aí potência do machismo caiu sobre mim com menos compaixão do que nunca: a orientadora propôs aborto, o programa de pós sonegou informações, descobri a violência obstétrica e vivi o assédio moral dentro da academia brasileira. Negra, de origem pobre, vítima de abuso sexual na infância, já sabia que ser respeitada custava muita luta. Mas foi em busca de fazer valer meu direito de escolher ser mãe e acadêmica com dignidade que o feminismo se tornou essencial. Me inundei de blogs e livros feministas, encontrei meus pares, a cura para minhas dores e força para impor ao mundo uma verdade: lugar de mulher é onde ela quiser. — Soraya S.
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Não sei se o texto se encaixa na proposta, pois é mais sobre como percebi que havia algo anormal na visão machista da minha família.. 🙂 Vou contar sobre quando decidi ser feminista, ainda que não soubesse explicar o que isso significava. Sempre passei os sábados na casa dos meus avós. Meu avô me pegava logo cedo, e eu ficava durante o dia com eles, até meus pais me buscarem à noite, enquanto jantava uma sopa fumegante e deliciosa. Foi assim durante anos, até que meu avô morreu e eu passei uns dias com a minha avó, para ela se acostumar com a nova rotina. Na primeira noite, eu separei os pratos e colheres para a janta, enquanto ela terminava o banho. De repente ela pegou com um guardanapo de pano e uma assadeira de pizza. Eu estranhei. Perguntei: “ué, não vamos tomar sopa?” E ela: “não, credo, eu odeio sopa”. Nunca mais me esqueci dessa frase, nem de tudo que eu sou e quero. — Camila Mendes
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Eu devia ter uns 5 anos quando ia em festas com a minha avó e alguém me disse que eu não podia fazer algo pois eu já era uma ‘mocinha’. Por algum tempo tive um pouco de raiva dessa palavra ‘mocinha’. Com a chegada da menarca, vish: – adivinha quem já virou ‘mocinha’? Engraçado, eu fui moça desde os 5 anos e nunca adulta o suficiente para terem comigo uma conversa sobre a vida, sobre sexo. E a mocinha aqui, entrou na vida sexual sem saber que sexo é sobre prazer para os dois. Com o feminismo eu descobri que fui estuprada. Mas com o ele eu também descobri que posso sentir prazer e que não preciso ter vergonha disso. O feminismo me empoderou e me fez sentir na responsabilidade de informar pessoas, transformar meninas em mulheres, e não em mocinhas. — Isabela Magalhães
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O feminismo mudou minha vida, a princípio, de forma a aceitar-me como mulher. Que a liderança e iniciativa que eu sentia dentro de mim não era algo masculinizado, ou ligado ao gênero. Depois, a compreender minha sexualidade, meus desejos e vontades. Me fez preocupar com meus estudos, meu futuro e as consequências dele para outras pessoas. Me ajudou a escolher engenharia (mecânica) que, agora ainda mais que antes, me encanta e me faz perceber que não existe profissões ligadas a um certo gênero. Me fez abrir a mente para outros espaços, ideias e necessidades de outras pessoas em geral. As feministas me dão forças para aguentar os dias puxados e a insegurança nos espaços públicos. Sou eternamente grata, e isso me faz querer retribuir. — Maria Vitoria Sikora

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Em um ano, o feminismo fez por mim aquilo que a análise não conseguiu em vários pontos: me ajudou a começar a juntar os pedacinhos da minha autoestima quebrada. Eu sempre sofri com uma insegurança terrível, paralisante. Sempre me achei gorda, feia, chata, desinteressante, burra. O feminismo vem me ajudando, pouco a pouco, a ver beleza em mim mesma. As mulheres que conheci dentro do movimento me deram uma rede de apoio, me fizeram sentir parte de uma comunidade que só quer o meu bem. O movimento (e, especialmente, a militância) não é perfeito e tem muito a melhorar, mas eu só tenho a agradecer a todas as irmãs que vêm me ajudando a me mudar pra melhor — Camila Lafratta

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O feminismo me proporciona, diariamente, o que a sociedade fez questão de me tirar até então: segurança. Na rua, em família, no trabalho, em relacionamentos. Ele me deu degraus para enxergar além, me deu poderes que me trouxeram confiança e iluminou questões que eu não encontrava solução nas respostas da sociedade. O feminismo, para mim, é uma aula diária. É aprender a me reconhecer e reconhecer meu valor. É, mais ainda, aprender a reconhecer minhas irmãs e o valor de cada uma – sem julgamentos, sem questionamentos, sem diferenças. O feminismo me deixa segura porque ele me mostra: não estou sozinha. Mesmo a sociedade dizendo o oposto, ele grita mais alto: não estamos erradas. O feminismo me deu a chance de andar de mãos dadas com mulheres incríveis em uma mesma direção – para, juntas, abraçarmos todas as outras que precisarem. — Mayara Potenza

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Já fui uma pessoa mergulhada em ignorância. Já estive tão cega pelos meus privilégios que cheguei a a acreditar que oportunidade era algo que todas tinham, que só não alcançavam porque não queriam. Já achei que feminismo era algo ultrapassado, que não não existia mais espaço para ele na sociedade, que mulheres já tinham conquistado seu espaço. Eu errei. Errei de maneira grotesca, bati com a cara no fundo do poço. Levantei e vi as outras mulheres; vi pelo que elas passavam, vi como eu havia sido protegida e entendi: não acabou. Aprendi a ter empatia, o famoso se colocar nos pés dos outros, e aprendi que meu privilégio era ilusão. Eu sou todas aquelas mulheres, que elas são eu. Que o que machuca uma machuca todas, porque somos todas irmãs. — Maria Clara Madrigano

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Por três anos, tive uma empresa e convivi diariamente grande parte do tempo com homens. Nas reuniões de diretoria, geralmente, eu era a única mulher entre 10 ou 12 homens. Nos almoços no dia a dia, eu sempre estava com pelo menos uns 2 ou 3 homens e dificilmente com alguma mulher. Eram meus amigos e eu achava muito legal me considerar ‘um dos meninos’. Mas uma frase frequentemente me lembrava de que, na verdade, eu não era: ‘Tá de TPM?’. Quando tentava defender minhas opiniões nas reuniões de trabalho e ouvia isso, achava que realmente o problema era comigo. Os meninos não têm TPM e, por mais que uma discussão profissional entre homens seja tensa, por mais que cada um tenha seus caprichos e defenda veementemente suas posições, por mais que briguem feito crianças da quinta série, seu posicionamento assertivo não será sempre atribuído à oscilação dos seus hormônios. Isso me irritava, mas pra mim, no fundo eu deveria mesmo estar errada, eu não tinha tanta experiência quanto eles, eu não sabia me posicionar, eu deveria ter falado de outra forma, eu realmente deveria estar me exaltando por causa da influência das fases da lua. Um dos meus primeiros contatos com o feminismo foi por meio da campanha ‘Chega de Fiu Fiu’, mas não relacionei a campanha a essa palavra que eu mal tinha noção do que era. Na mesma época, participei de um evento sobre empreendedorismo feminino e, procurando saber mais sobre o assunto, logo me deparei com o livro da Sheryl Sandberg, que me mostrou como muitas das situações que vivi no trabalho eram machistas, apesar de ter trabalhado grande parte do tempo com equipes em que a maioria das pessoas eram mulheres. Com o ‘Faça acontecer’, percebi o que significa equidade entre os gêneros e que, por mais que a mulher tenha conquistado direitos e maior participação na sociedade, no fundo ela ainda é vista, em primeiro lugar, como uma ‘mulherzinha’, no sentido estereotipado da palavra, e precisa se esforçar mais e se provar melhor, mais capaz, mais séria, mais profissional do que qualquer homem para receber a mesma valorização, para ser ouvida. Hoje, meu olhar está mais apurado, tenho procurado identificar espaços onde a mulher poderia ter mais voz e refletir sobre o porque de elas não terem tanto destaque, mesmo desempenhando papéis semelhantes aos dos homens. Isso me levou ao desenvolvimento de um projeto para dar visibilidade a mulheres empreendedoras e líderes, que possam servir de exemplo e estimular outras a seguirem o mesmo caminho. Agora, ser a única mulher em uma sala cheia de homens é, pra mim, sinal de que algo está errado e não mais um motivo de orgulho e espero poder ajudar a mudar esse cenário tão comum. — Vivian Vianna

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Eu fui criada, como a maioria das mulheres, pra competir com outras mulheres. E só com as mulheres. Qual é mais bonita, quem tem a roupa mais descolada e o cabelo mais arrumado, quem arruma um namorado primeiro, quem casa primeiro. As mulheres têm dificuldade em se amar. A gente aprende desde cedo a apontar o dedo pra outras mulheres e a julgar a vida delas. O feminismo me ensinou a enxergar beleza no diferente e a julgar menos. O feminismo me trouxe amor. Amor próprio, amor pelos outros, mas, principalmente, pelas outras. Pelas mulheres. O feminismo me ensinou a amar as mulheres. — Mariana Arantes Fulfaro

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O meu feminismo me ensinou, acima de todos os ensinamentos, a me aceitar. Acredito que, mesmo quando eu não entendia muito o que era, o feminismo sempre esteve em mim. Sempre parecia que havia algo de errado, mas segundo a sociedade, era comigo. Mas quando eu descobri o feminismo, aprendi que o que estava errado é esta forma patriarcal que a sociedade pensa, e utiliza com relação ao comportamento e o convívio com as mulheres, e não eu. Eu aprendi a me aceitar do jeito que eu sou, que eu não devo respeito a ninguém porque ele é meu por direito. Descobri que eu não preciso mudar para conquistar meus objetivos profissionais e relacionamentos. E isso me deu confiança e amor próprio. Eu descobri quem eu realmente sou. E devo ao feminismo essa ciência dos meus gostos e dos meus objetivos na vida, e também das minhas opiniões. O feminismo me fez ir muito além da minha aceitação pessoal. O feminismo me fez aceitar a condição de ser mulher e ir para frente com isso. — Karoline Gomes

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O feminismo mudou minha vida na perspectiva de me fazer enxergar as mulheres não como inimigas, mas como parceiras, o que fez com que eu aumentasse o meu grupo de amigas. Me fez enxergar que muitas vezes estamos reféns do machismo mas, que podemos lutar contra ele. Mudou minha vida quando eu descobri que tenho apenas vinte anos mas, posso começar agora a fazer muito pela minha geração e pelas próximas, para que minha filha não precise sofrer por ser mulher, para que ela possa viver em um mundo em que ela tenha as mesmas oportunidades de um homem. O feminismo mudou minha vida porque a partir dele, eu descobri que meu corpo não define quem eu sou, o feminismo me ensinou que minhas ideias definem quem eu sou. — Amaralina do Carmo

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Eu sou feminista desde que me conheço por gente, pois nasci numa família de muitos homens, e sempre tive que ser meio ‘macho’ para sobreviver. Hoje sei que não é mais necessário. Minha mãe era dona de casa, e teve 8 filhos, era dependente financeiramente do meu pai e fazia alguns trabalhos (forrar botões, salgadinhos, doces), para ter os trocados dela. Antes de casar minha mãe era uma mulher independente também, e migrou de Pelotas (cidade Natal até Porto Alegre), lá ela foi morar com um tio, anos depois conheceu meu pai e se casou, porque foi atormentava pela família (anos 40 do século passado), tudo era muuuito difícil. Ela ajudava na igreja, e era a típica católica para ajudar os pobres, doentes, fracos, trabalhava que nem uma condenada com 8 filhos, uma época sem microondas, sem secadores, lavadora de pratos, etc. Enfim, minha mãe sempre me ensinou a ser indenpendente financeiramente, a estudar, e aos 19  anos sai de casa e nunca mais voltei. ela me ensinou a nunca aceitar desaforo de homens, e a me respeitar. Sinto que ser femista faz parte de mim, não conseguiria ser o contrário. Mas sempre tive que me provar no mundo dos homens. Hoje não tenho que provar mais nada, ser feminista é ser eu mesma e dizer o que penso em meu nome, e em nome de mulheres oprimidas por uma sociedade machista, doa a quem doar, minha voz não se calará. — Bebete Indarte

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Quando eu ainda não sabia o que significava a palavra feminismo e muito menos que este existia, uma vozinha lá no fundo do meu ser questionava: ‘’Por que só tu tens que ajudar nos afazeres domésticos se tem mais dois irmãos que podem fazer o mesmo?’’ ‘’Por que a tua minha mãe depende e sofre nas mãos de um homem?’’ Felizmente, conheci o movimento e percebi que existem mais mulheres com ideais semelhantes aos meus. E ainda mais, que tinham sofrido muito mais do que eu sofri. E aquela minha vozinha tornou-se um clamor desesperado ‘’Lute por você, mas, principalmente, por elas!’’ — Luciana Souza

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Demorei pra enviar porque não sabia pôr em palavras. O feminismo me tornou um ser humano completo, ainda que em constante construção. Minha educação não foi tão sexista quanto a das minhas amigas, então alguns conceitos deturpados como competição entre mulheres me eram desconhecidos. Acho que o feminismo deu um nome e um norte a algo que sempre senti e pelo o qual sempre defendi, mas nunca tinha sido por mim descrito. Ele me fez enxergar meus privilégios e a ausência de vários direitos que ainda matam mulheres e que nos tornam “cidadãs de segunda classe” pra muita gente. O feminismo é a chave de grilhões dolorosos que ainda mutilam e tiram a esperança das mulheres de serem consideradas seres humanos. Os tijolos machistas e racistas que nos constroem, porque infelizmente somos criadas neste mundo, foram e ainda estão sendo derrubados. Ser feminista também me fez ser tolerante comigo mesma. — Sybylla

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Não mudou, definiu! Virgem aos 22 anos, fui conhecer o feminismo na Faculdade (USP – ECA), com uma ginecologista porreta que nos prescrevia a pílula, com intervalos para o corpo descansar, e com a Marilena Chauí, falando sobre Spinoza. Nem imaginávamos o que era feminismo. Éramos felizes, fazíamos amor livre, sonhávamos com ética e felicidade.  Não éramos tristes, feias, feministas. Éramos mulheres querendo amar e ser amadas! — Andréa Nogueira

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Estava grávida pela segunda vez, mas não tinha filhos. Minha primeira gestação “não foi pra frente”, como dizem por aí, apesar de eu nunca ter entendido direito tal uso para essa expressão. Eu realizava consultas com o senhor obstetra, um desses figurões que deixam as mulheres constrangidas, com vontade de dizer “sim, senhor!” o tempo todo. Achava que gostava dele, apesar de ter tratado meu aborto como quem descarta um dente de leite. A culpa era minha. Sim, o mundo todo dizia que a culpa era minha, mesmo que ninguém usasse essas palavras. O feto não estava se alimentando direito, eu fiz muito exercício físico (kung fu não combina com garotas, menina!), meus hormônios estavam desregulados, meus genes não eram os melhores. Ouvi todo o tipo de coisa, e a culpa era minha, obviamente, e a sacanagem era que eu nem podia dizer em voz alta porque sabia que viria uma avalanche de olhares de pena. O senhor obstetra acompanhou todo a minha segunda gravidez. Sentia que eu ia lá só para provar a ele que podia ter um filho, podia levar uma gravidez até o fim. Ele recomendava meia o dia inteiro e eu passava mal de calor só de pensar. Não usei. Muito creme, nas nádegas, pernas, barriga e seios. Toneladas de creme. Passei, às vezes. Comer só o suficiente. Se der vontade de comer muito, não o faça, de jeito nenhum. Sentia tanto enjoo que a recomendação era inútil. O senhor obstetra dizia que meu marido precisava me desejar após a gravidez, então eu não podia ter varizes e estrias, nem ficar gorda. O que mais incomoda hoje é que eu achava que tinha sentido, na época. Quando estava de 36 semanas, percebi todos os sinais de que o senhor obstetra me colocaria numa sala de cirurgia e faria uma cesariana, a despeito do que fosse acontecer, e da minha vontade. Paciente não tem esse negócio de vontade! Conversei com uma amiga que eu percebia sempre engajada na causa por partos mais humanos. Podia jurar que eu já tinha dado risada dela numa roda de conversa, considerando-a uma maluquinha que pensa que está vivendo numa tribo indígena. Muito descolado para o meu gosto. Ela foi direto ao ponto: “você quer parir, de verdade?”. Sempre achei que a resposta fosse óbvia, que eu faria o que fosse melhor para meu filho e para mim. Eu só não sabia que esse papo de “que seja o melhor na hora” é uma grande armadilha. Tem muita gente envolvida, do senhor obstetra ao hospital e plano de saúde. Recebi um número de telefone que mudou minha vida. Conheci uma equipe de médicas humanizadas. Após duas semanas, meu filho nasceu. Durante o trabalho de parto, eu podia gritar, podia comer, podia andar, podia chorar, vomitar, xingar, bater. Eu pari meu menino. Senti seu cheiro e calor, dei o peito e ele mamou. Entendi que meu corpo podia e eu tinha todo o direito de viver aquele momento como desejasse. Vi respeito na minha equipe, em relação a mim e ao meu garoto. Sinto muito por tantas mulheres que sofrem violência obstétrica, sendo ridicularizadas, humilhadas e subjugadas. Elas não podem gritar, porque não gritaram na hora de fazer. Elas não podem tomar decisões, porque não são ninguém para fazer isso. Nada de parto normal porque pode rasgar tudo lá embaixo e como vai ser quando tiver relações? Devem preservar os seios, então não podem dar de mamar por muito tempo. Seios são para o marido. Não coma demais! Não esqueça as meias e cremes! Não grite! Não vá parir! Não amamente! … E leve maquiagem para sair bem nas fotos após a cirurgia! — Cláudia Coimbra

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Aos 14, grávida: me casaram. Ela nasceu e morreu 30 dias depois.Fingiram que nada aconteceu. Aos 21, me apaixonei, desabei em um romance que durou 8 anos. Um pesadelo. Aos 24, grávida. Pílulas: 2 cirurgias,6 meses de complicações.Culpa. Aos 27, grávida. Quis muito. Casei, agarrei o emprego pra sustentar filho e marido. Unha feia, bagunça, cansaço, culpas, amor, família. Mudamos pro sítio dele e saí do emprego. Ele procurou por uma travesti, perdi o desejo. Surgiu a misoginia. Me afundei em fumaça, frustração e humilhações diárias. Nunca pude tomar pílulas. Mais uma vez, gravidez. Escolhi não ter, ele pagou médico e distribuiu ofensas. Me expulsou de casa. Mergulhei no feminismo, joguei muita coisa fora, fui embora e renasci. — Thalita Prado

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Eu achava que minhas curvas eram feias e deviam ser escondidas. Eu achava que estar em um relacionamento abusivo era o preço a se pagar por ser amada. Eu achava que ser mulher era amar incondicionalmente. O feminismo mudou a minha vida. Eu entendi que não importa o que pensam ou o que querem que eu pense a respeito do meu corpo, mas como eu me relaciono com ele. Entendi que amar é diferente de se submeter à violência. Entendi, como se fosse loucura pensar isso antes, que sou humana.  O feminismo me mostrou que tem muita coisa fora do lugar no mundo, que há muito desrespeito e opressão escondida em atitudes quase banais, mas que posso lavar o rosto, erguer a cabeça, me amar e exigir respeito. — Eugenia Silva

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Desde que me entendi como feminista, minha raiva em relação à outras mulheres arrefeceu de uma maneira incrível. Não olho mais as meninas que passam procurando defeitos no seu modo de vestir, se maquiar, falar, sorrir. Acho todas bonitas, com ou sem maquiagem, de saia, calça ou bermuda, lendo um livro ou conversando com a amiga. Elogio internamente o “look do dia” e a coragem de, diariamente – e mesmo sem saber -,  colaborar com a causa, indo contra tudo que nos manda ficar quieta, ficar parada, obedecer, baixar a cabeça, ouvir desaforo, pegando trem, indo trabalhar, tomando suas decisões, vestindo o que prefere, ganhando seu dinheiro, estudando e vivendo a vida como ela deve ou pode ser vivida. — Livia Lara

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Um dia acreditei na monogamia instituída pelo patriarcado e nos papéis sociais de gênero. Eu pensava que deveria ser responsável pelas tarefas domésticas ainda que trabalhasse. Me sentia feliz em planejar o casamento com meu  primeiro namorado e por ele briguei com a minha melhor amiga e a odiei por disputa-lo comigo. Se não tivesse conhecido o feminismo jamais teria me graduado (casaria antes), os sonhos da pós graduação sequer teriam passado pela minha cabeça. Morar no Rio de Janeiro sozinha não seria algo desejado. Morar na Cidade do México para fazer um doutorado sanduiche seria uma proposta inusitada. E escrever e militar denunciando feminicídios no Brasil seria uma abstração. O feminismo mudou a minha vida. E pra muito melhor. — Izabel Solyszko

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Eu comecei a abrir meu mundo para o feminismo tardiamente, mas nunca tarde demais. Tenho dividido minhas descobertas com amigas, irmãs, porque quero que elas sintam a libertação que tenho descoberto. O feminismo é a luta pela igualdade dos sexos, mas, principalmente, pelo ideal de as mulheres serem vistas e tratadas como seres humanos. Parece extremo, exagerado, assumir que nossa realidade não é essa? Eu concordaria com o extremo disso até pouco tempo atrás, mas comecei a prestar atenção, a ler textos, a ler atitudes, a ler o que a publicidade ilustra como ideal do feminino, e o tanto que esses meios não nos representam. Sinto-me como que desperta, com os sentidos aguçados, é um novo mundo que se abriu. Depois de olhar para fora, e de ouvir e discutir com mulheres que estão nessa luta há mais tempo, comecei a olhar para mim mesma, e relembrei tantos e tantos momentos de autossabotagem e tristeza pelos quais passei, por “achar” que estava errada, inapropriada, ou não me dando ao respeito, quando poderia focar toda essa energia na tentativa de entender quem eu era. Inapropriado é um adjetivo de atitudes femininas, é inapropriado falar palavrão, é inapropriado transar sem compromisso, é inapropriado falar alto, é inapropriado ficar bêbada. Eu enxergava várias barreiras impostas às meninas, e como consequência entedia que os meninos eram responsáveis por ganhar seus privilégios, quando na verdade eles os recebiam como regra ao nascer com seus pintinhos. No mais, percebi que existe um mundo dentro de mim, e preciso aceitá-lo e compreendê-lo quanto antes, mas existe também um mundo de diferenças e injustiças para fora de mim. Eu sou branca, mulher, heterossexual, existe uma realidade ainda menos privilegiada que a minha. Pessoas morrem por causa do machismo, mas pessoas morrem por causa do racismo e pessoas morrem por causa da homofobia. Descobri que não é não levar na boa, quebrar o clima, ser muito radical, não achar graça nas piadas que tenham esses problemas sociais como base. De novo: pessoas estão morrendo, a piada não cabe aqui, ela é perigosa e perpetua esse problema. No feminismo eu descobri a sororidade, uma palavra que não deveria ser desconhecida, porque muito importante. Sororidade é a irmandade entre as mulheres. O contrário do que acontece na vida real, em que somos encorajadas a competir umas com as outras, desde muito novas. Consigo identificar essa competição na minha própria vida: com 7 anos eu já me sentia compelida a ser mais bonita para chamar a atenção do garotinho da minha sala, o mesmo garotinho que me chamou de gorda e quebrou meu pequeno coração em pedacinhos. Eu não sabia, naquele momento, que ele era um layout de babaca, minha certeza era que tinha algo errado comigo. Temos essa facilidade de abraçar nossas falhas, somos o erro, filhas de Eva, que mordeu a maçã e cagou tudo, nós somos ensinadas a pedir desculpas por qualquer coisa, antes mesmo de cogitarmos que não estamos erradas e, de novo, inadequadas. Somos isoladas em nossas pequenas ilhas, sem poder confiar umas nas outras, porque a outra pode roubar “nosso homem”. Nossas amizades crescem em cima dessa terra podre de desconfiança e competição, então seguimos soprando a vela da amiga, querendo sobressair como a mais gata na balada (!). Estou chegando aos 30, assim como a maioria das minhas amigas. Percebi há pouco que hoje nos elogiamos de forma sincera e com frequência, e isso não acontecia na adolescência, ainda estávamos naquele triste ciclo vicioso. Percebi como, juntas, somos mais fortes, juntas nos defendemos, nos empoderamos. O feminismo é um lugarzinho mais quente. — Vanessa Grigoletto

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Nunca achei que me encaixava como “feminista”, apesar de concordar com várias idéias propostas por esse movimento, até que li o discurso Chimamanda Ngoiz Adichie e me identifiquei. O feminismo mudou a ideia que eu tinha sobre mim, coisas como o movimento “chega de fiu-fiu”, a aceitação de como eu sou e de que eu posso ser mulher e dizer “não” , coisas simples que me fizeram pensar ” ei, você não está errada” mas, o melhor de tudo foi saber que eu não estou sozinha. — Samara Oliveira

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Na minha vida, o feminismo já era existente e muito presente mesmo sem eu saber direito. Desde muito pequena eu já não aceitava o fato de eu ter que lavar a louça e arrumar minhas coisas e meus primos homens não ou o porque eles tinham roupas e brinquedos considerados “de meninos” e eu não podia ter/brincar. Sem falar da minha infância e adolescência e o sofrimento da não aceitação do meu próprio corpo, eu o detestava e por muitas vezes eu desejei morrer ou ser homem por conta disto. Até que então, por meio de artigos e livros sobre o feminismo a ficha caiu, por completa. Sou eternamente grata por essa descoberta, mesmo que absolutamente óbvia e simples, eu comecei a olhar o mundo por um outro viés, enxergava coisas que antes seriam impossíveis de perceber, o machismo se tornou muito mais claro. Ganhei uma nova expectativa de vida, de que mulheres não estão fadadas a serem donas de casa e nem dependentes de seus maridos ou sequer precisam se casar (realidade de praticamente todas as mulheres da minha família), entendi que sou linda exatamente do jeito que sou e fiz tudo isso sozinha, pois meus familiares são totalmente machistas. Sei que sem o feminismo, eu seria incapaz de compreender o motivo de eu não concordar com várias coisas. Seria incapaz de enxergar o abuso sexual implícito de cada comercial de cerveja, seria incapaz de compreender o porque que a lesbofobia e a homofobia são tão recorrentes no mundo e várias outras coisas que eu apenas percebi depois que entendi que eu já era feminista antes mesmo de saber o que o feminismo significava. — Geovana Silva.

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Respondo logo no início. Mudou para melhor, muito melhor! Sofri violência sexual. Uma marca para a vida. Mas para o meu namorado (hoje ex) foi como se contasse um fato qualquer da vida. E isso doeu. Assim como doeu quando ele disse que gostava de me “desfilar”, porque sou bonita e causaria inveja. Fui um objeto que foi dopado e violentado por um homem, e depois um objeto de exposição para outro. Não queria ser um objeto, não sou coisa pra se mostrar, sou pessoa para respeitar! Cansada disso, o feminismo foi entrando de mansinho, de maneira orgânica na minha vida, mostrando que não sou prêmio para exibição, que não sou obrigada a aceitar as cantadas na rua, a desigualdade, a coisificação. O feminismo me levou a buscar a igualdade, a vencer preconceitos, a perceber a força que eu tenho para mudar. Buscar a igualdade da mulher me fez perceber a sociedade excludente, não somente com a mulher, mas com a cor e opção sexual. O feminismo me fez querer a igualdade da mulher, do negro do LGBT. Me fez entender o que é igualdade e como deve ser. Outro dia mesmo em uma conversa com um homem, quando disse que queremos direitos iguais, ouço em resposta: “mais?” Sim, mais. Quero o direito de sair de casa vestida de moletom ou de shortinho e decote. Quero o direito de ser tratada de forma igual e de ter um salário igual ao dos homens no ambiente de trabalho. Quero o direito de não usar maquiagem porque a mídia diz que preciso. Quero o direito de andar na rua sem ouvir cantadas, sem ser objeto. Quero o direito de me emputecer e estar de mau-humor e não falarem que é TPM. Quero o direito de namorar um homem. E depois uma mulher. E quero o direito de ser respeitada por isso. Quero o direito de transar com quem eu quiser. E não ser desumanizada. Quero o direito de não transar com ninguém, e não ser chamada de puritana. Quero o direito de ser dona de casa por opção. E não ser chamada de Amélia. Quero o direito de ser vista como igual. Quero o direito aos meus direitos. E devo isso ao feminismo. Devo também o fato de nunca mais falar que uma pessoa fraca é “mulherzinha” ou “veadinho”, ou falar que trabalho mal feito é “trabalho de preto”. Devo ao feminismo a perda dos meus preconceitos, dos dogmas pré-concebidos, das ofensas que sempre tratei como uma piada ou brincadeira. Antes não notava o machismo, e hoje é impossível não vê-lo. Não percebia que ele está atrás até do que parece um elogio no ambiente de trabalho, já que o “perfeito, querida, muito bem” não seria “perfeito, querido, muito bem”.  Mas acho que a maior dívida que tenho com o feminismo é a união de todas estas percepções e noções, é a realização da minha força como mulher, o meu empoderamento que segue dia após dia, com a sororidade, que me levou a conhecer muitos feminismos, e todos, mesmo que de forma diferente, buscando a mesma coisa. A IGUALDADE. — Thanee Degasperi

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O meu feminismo não é só meu, é de tod@s. É daquelas que se culpam por não ser  ‘a namorada perfeita’ ou a gostosa do pedaço. É dos homens que oprimem por mero “costume”, do garoto que não quer ser o “macho alfa”, é de HOMENS, MULHERES, CRIANÇAS, de TOD@S. Meu feminismo é ABERTO, acolhe aos pais, mães, filhos, filhas e qualquer um que deseje uma sociedade mais justa, mais igualitária. O meu feminismo é DIALÉTICO, argumentativo, e cheio de debates questionadores que buscam mudar as estruturas de vida de nossa sociedade. O meu feminismo é LIBERTÁRIO,  removedor de estigmas e conflitos internos que nos amarram à uma imagem, um modo de agir, de pensar, de sentir. O meu feminismo me diz pra ser quem eu sou e não o que os demais querem que eu seja. No meu feminismo, seres humanos são PESSOAS, seu desenvolvimento vai muito além de seu gênero, sexualidade ou genitália. O meu feminismo ensinou-me sobre liberdade, equidade, SORORIDADE: palavra  bonita, diferente, mas que envolve sentimentos que não foram cultivados, até então, em minha vida. Ele me abriu os olhos, a mente e o coração. Mudou minha vida, meu relacionamento com o mundo e comigo mesma, criou laços com diferentes causas e me motivou ao ativismo. Meu feminismo é sobre AMOR… à mim mesma, ao meu corpo, às minhas escolhas e ao meu papel no mundo. É sobre EMPATIA, me faz compreender a dor do meu semelhante, me solidariza com el@, independente de ser algo distante da minha vida. Me faz sentir as amarras das minhas companheiras, por mais que não sejam as mesmas que me prendem. Assim, sinto as dores do parto violento sem nunca ter gestado, a homofobia sem  que eu questione minha sexualidade e o racismo sem que  considere minha cor. O meu feminismo é COLETIVO, em todos os sentidos. Na academia, leva o nome de LivraElas, coletivo feminista dentro da Universidade; na prática me leva às ruas pra reivindicar direitos e conscientizar sobre a revolução. O meu feminismo é REVOLUCIONÁRIO, quebra paradigmas, abala estruturas e construiu internamente o espaço para o florescimento de uma nova flor:  uma nova Florencia. O meu feminismo não é NORMAL, nem meu, nem possui VERDADES. Meu feminismo é só mais uma forma de ver o mundo sem preconceito, limitações ou qualquer coisa que me impeça de ser, naturalmente, EU. No meu feminismo somos livres, somos leves, somos loucas, somos tudo aquilo que queremos ser, ou apenas SERES HUMANOS. — Florencia Guarch
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O feminismo mudou a minha vida por que me disse o óbvio, mas que às vezes é tão difícil de enxergar. Me conscientizou de que não é normal eu ser subjulgada pelo simples fato de ser mulher; que o machismo mata (literalmente); que homens e mulheres são diferentes mas não devem ser desiguais, que o patriarcado ainda está ai, escolhendo as roupas que vestimos, os lugares por onde andamos, as profissões que exercemos, com quem e quando podemos gozar, até os sonhos que podemos (ou não) sonhar. O feminismo mudou  a minha vida ao passo que me deu a missão de mudar essa realidade tão perversa que nos cerca, me conscientizando que todas nós podemos ser uma célula revolucionária por um mundo melhor para as nossas filhas, netas e demais gerações.  — Amanda Carneiro
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O meu feminismo se parece como dar à luz a uma nova personalidade. Com a capacidade de assumir os acontecimentos do passado, iluminar e adotar um sentido que antes não existiam. Lembrando a primeira vez que vi um cara com uma ereção. Eu tinha 12 anos e fui obrigada a vê-lo. Voltava da escola pelos becos de um bairro tranquilo em Buenos Aires e ele me chamou insistentemente do outro lado da rua. O pequeno horror foi suavizado pela minha mãe: “coisas que acontecem”, disse, enquanto eu não parava de chorar. Meu feminismo aparece quando não aceito o assédio como algo normal que irá suceder ad eternum, algo que muitas outras meninas vivenciam e aceitam por que “sempre foi assim”. Então meu feminismo emerge em cada cantinho onde posso desnaturalizar uma injustiça — Florencia Goldsman
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Eu era uma Livia completamente diferente da que eu sou hoje. A minha visão de mundo, desde que me reconheci feminista e comecei a estudar e ler sobre, mudaram completamente. No que diz respeito ao próprio machismo, mas também, ao racismo, ao classicismo, a homofobia. Nunca fui nada disso, mas eu entendi o que é lutar e porque lutar por isso e pra isso. Sigamos a luta. Eles não passarão. — Livia Siqueira
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O feminismo me fez e me faz mais forte a cada dia. Mais forte pra olhar pra mim e perceber quando sou oprimida, mais forte pra olhar pro lado e perceber que minha irmã é oprimida, mais forte pra erguer a cabeça e resistir à opressão: me trouxe a sororidade quando mais precisei. Vivi um relacionamento opressor sem perceber, e não foi fácil conseguir olhar pra mim, pro meu companheiro, e admitir isso; sem o feminismo talvez eu não resistisse tão fortemente, me vitimizasse e aceitasse meu destino de “ser mulher”, aceitasse a natureza do homem e a minha loucura imposta por sua razão, me calasse diante do patriarcado e aprisionasse minha liberdade, que hoje quero plena. Sem o feminismo, eu teria perdido minha essência de ser livre e de ser mulher. — Isadora Laguna Soares
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O feminismo me fez menina, moça, mulher. Me acordou e abriu meu olhos. Parei de olhar pro meu próprio umbigo, e enxerguei o mundo em geral, não só o das mulheres e também de toda a minoria. Me tornei gente e aprendi a ter força e nao me deixa calar. Agradeço sempre por ter conhecido o feminismo. Apesar de ser nova ja sei a importância dele pro mundo. Espero aprender cada vez mais com ele. O feminismo e toda essa luta por igualdade é minha vida. — Enilse Viriato
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Eu conheci o feminismo por meio da minha irmã, após termos uma conturbada discussão com o nosso pai. Depois do calor do momento, fomos conversando, e mencionei que eu e minhas colegas de classe vínhamos passando ( e ainda passamos) por situações machistas. E, depois  do que minha irmã contou, eu me modifiquei e fui percebendo várias coisas. Quero listar duas delas aqui, pois são de suma importância na minha vida:
1- Desde cedo, muitas meninas vão recebendo de presente o mesmo tipo de presente: cor de rosa, que as ensinam a cuidar da casa e blá blá blá. Tipo, mulheres são muito mais que isso, mulheres são independentes, tem autonomia e habilidade para ser muito mais do que uma simples dona de casa. Deviam ensinar isso as nossas meninas.
2-Existe beleza de todas as formas (e mulheres se arrumam para si mesmas, não para agradar os outros) . Muitas revistas de adolescentes têm aquele padrão da garota magérrima, branca.  Alôô! Desde quando é assim? Cada menina é bonita de um jeito, não importa o peso, não importa a cor. Infelizmente, isso não é muito divulgado atualmente. Chega de esteriótipos! — Melissa D’Arienzo
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Entrei de cabeça num relacionamento com um cara bem mais velho, que se mostrou abusivo. Aconteceram tantas coisas ruins e ele me fez tanto mal que passei a falar cada vez menos. Comecei a me fechar, como numa “concha”, como dizia minha mãe – que até tentou me salvar disso, mas eu estava com a autoestima tão baixa, tão carente e tão envolvida que não permiti que ela me ajudasse. Chegou uma hora que parei de falar. Parei. Comecei a travar. Não conseguia mais debater, defender um ponto de vista, colocar minha opinião. Mesmo com a mente fervilhando, mesmo com bons argumentos, eu travava. Suava frio, a pressão baixava e eu não conseguia mais falar. Parecia um pesadelo. E eu fiquei assim por quase 10 anos. (…) Um dia apareceu na tl do meu facebook um convite para a Marcha das Vadias na minha cidade. Atraída pelo nome, fui pesquisar do que se tratava. Meu coração começou a bater forte, me fazia lembrar os protestos que eu organizava na adolescência. Chamei várias amigas para irem comigo, mas nenhuma aceitou. No dia da Marcha, não tinha com quem deixar minha filha nem uma amiga com quem ir. Pensei em desistir, mas refletindo percebi que tinha na minha filha de apenas 8 meses a melhor companhia que eu poderia desejar. Coloquei ela no carrinho e fui para a concentração. Ver todas aquelas moças empoderadas, gritando frases feministas, fazendo cartazes… aquilo tudo mexeu demais comigo. Foi ali que me dei conta de que eu era feminista, de que eu sou feminista! Muitas delas vieram conversar comigo, trocamos ideias sobre o feminismo, mas mais ouvi do que falei. Além de ainda estar travada, estava emocionada demais pra conseguir dizer muito. A hora do almoço se aproximava e a marcha propriamente dita não começava. Comecei a ficar aflita porque não queria ir embora, queria fazer parte daquilo ali, mas precisava fazer o almoço da minha filha. Vendo que não tinha como ficar mais, decidi ir embora com um cartaz pregado no carrinho dela e andar bem devagar. “Por um mundo onde minha filha seja livre”, escrevi numa cartolina. Fiquei mais um pouco e então comecei minha marcha simbólica e silenciosa. Nossa marcha. As pessoas olhavam curiosas, me paravam para perguntar do que se tratava, pediam para fotografar. E então começaram a me rodear, pra saber mais. E eu comecei a falar. Comecei a explicar, a dizer, a debater, a rebater. Só me dei conta disso quando já estava chegando perto de casa. Eu tinha falado pra várias pessoas o que eu penso, sinto, falado sobre o que eu acredito. Eu tinha falado. Não conseguia acreditar. Fui cuidar da comida e da Olívia, só à noite consegui sentar no computador para ver as notícias e os comentários sobre a Marcha. Pra minha surpresa, a foto do cartaz no carrinho estava em diversos grupos, páginas e blogs. Pessoas diferentes fotografaram e publicaram a foto, que foi compartilhada com frases muito bacanas. Aquilo me emocionou demais e me encheu de uma esperança absurda, coisa que eu não sentia há tanto tempo que não sabia quanto. Se eu tinha medo pela minha filha, agora também tinha esperança e começava a ter coragem pra lutar e tentar mudar as coisas. Porque eu podia sim me unir a outras mulheres e lutar por um mundo melhor pra todas nós. A partir dali, as coisas mudaram muito. Eu voltei a falar e me posicionar e, claro, isso não passou despercebido. As pessoas ficaram muito surpresas e até assustadas com essa “nova” atitude, não compreendiam. Passei a ser tratada com hostilidade e agressividade, inclusive por familiares, que me viam como uma feminista louca e histérica. Foi tão opressor que a coragem foi sumindo, comecei a me sentir desanimada e com medo de viver um novo inferno. Eu estava quase desistindo dessa minha voz quando no espaço de apenas uma semana presenciei três episódios de violência contra mulheres nos quais pude de alguma forma interferir e até ajudar. Entendi que não tinha mais como voltar atrás e me calar, não dava pra desistir da minha voz e do feminismo. Por mim, por minha filha e pelas outras mulheres. Decidi então escrever um longo post no Facebook sobre isso e pedi a todos meus contatos que lessem. Entre muitas coisas, escrevi: “Deixei que me silenciassem uma vez, mas isso não vai acontecer de novo. Se você não concorda com o que digo ou escrevo, sinta-se à vontade para se afastar, me tirar do seu feed ou me deletar. Eu não vou parar de falar”. Amizades se desfizeram, mas por incrível que pareça as coisas só melhoraram a partir dali. O feminismo devolveu minha voz, e junto com ela parte do que eu sou, da minha essência. Me devolveu a esperança, a coragem e a força pra lutar por aquilo que acredito. Um mês depois da Marcha, com apenas 9 meses, minha filha começou a falar. Achei simbólico. Uma das primeiras coisas que ensinei ela a dizer foi: não é não. E agora, com o feminismo, espero ajuda-la a jamais se fazer silenciar. — Ana Barcellos
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Quando um amigo me deu o livro que abordava a temática do feminismo, jamais poderia imaginar a bomba que colocava em minhas mãos. A leitura lenta, preguiçosa, a princípio se mostrava só como um interesse meramente didático. Decidi, com o tempo, pesquisar mais, afinal, uma semente tinha sido brotada. Curti algumas páginas no facebook e comecei a ler todo o material que aparecia e foi assim que o feminismo mudou de lado, cá na cuca. E do interesse histórico/pedagógico, foi surgindo uma dúvida aqui, uma crítica ali e então, percebi, que eu já estava absurdamente envolvida com essa causa que é minha, só esteve amortecida todo esse tempo. — Jacqueline Lino Cavalcante
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​O meu feminismo despertou a busca por novas ideias. Ideias contrarias as de que cresci sonhando. Sonhava em casar, ter filhos, me dedicar ao marido. Com o amadurecimento, já a partir de 30 me deparei com outra realidade. 1°) E se eu não quiser ter filhos?​ A reposta da sociedade quase unanime: toda mulher precisa ter filhos. 2°) E se eu quiser me separar? A reposta da sociedade era sempre você precisa mudar seu pensamento, pois sua vida de casada é ótima, com todo mundo é assim mesmo. Em fim: porque não ser independente, ter sonhos diferentes, buscar minha felicidade trabalhando só pra mim, com tempo pra fazer tudo como quero, na hora em que quero. Sem compromisso com filhos ou marido, dedicando meu amor ao que eu realmente gosto? Daí descobri há apenas dois anos: SOU FEMINISTA. Me reconheci, e procuro acompanhar o estilo de vida de quem também é assim. Resultado: estou feliz! — Debinha
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