Dorothy Iannone: A doçura da nudez fora do tempo

 

Mulheres-na-arte (1)

Se há uma artista que tem seu nome e obra imediatamente ligados à luta pela emancipação e direitos igualitários das mulheres, assim como à defesa de sua sexualidade sem discriminação alguma, essa artista é sem dúvida a norte-americana Dorothy Iannone (1933, Boston). Em uma recente exposição em Berlim intitulada This sweetness outside of time. (tradução livre: Esta doçura fora do tempo), Dorothy chocou e conquistou o público, ou pelo menos a mim, pela simplicidade despudorada (e por que não também pela doçura, como a própria artista intitulou sua mostra?!) como representa a sexualidade feminina que, lamentavelmente, ainda é subjulgada, censurada moralmente ou tratada com desrespeito e preconceitos na maioria das sociedades contemporâneas.

 

Em uma espécie de arte-manifesto, impulsionada por experiências e elementos de sua própria vida, Dorothy Iannone faz uso de telas, desenhos, vídeos e objetos-instalações para expressar sua posição e visão em relação à liberação sexual feminina sem se preocupar com censuras, ameaças ou críticas conservadoras que vem recebendo desde os anos de 1960. Sim, as mulheres que Dorothy retrata estão nuas, despudoradamente nuas e gozando genuinamente dessa liberdade ao lado de figuras masculinas, igualmente desnudas e felizmente livres de qualquer repressão moral ou religiosa. Corpos humanos nus entrelaçam-se livre e harmoniosamente, mesclando-se entre si de forma tão natural e simples como a sexualidade humana deveria ser tratada e respeitada por nós. Em “Dieter and Dorothy” (Dieter e Dorothy, 2007), a artista exemplifica esse entrelaçamento corporal natural e genuíno transformando ela mesma e o artista suíço Dieter Roth (1930-1998), com quem teve um relacionamento por sete anos e uma forte e próxima amizade mesmo depois da separação até seu falecimento, em uma mesma figura.

 

Dieter and Dorothy, 2007

 

Imagem: Dieter and Dorothy, 2007.

 

Nota-se que os corpos humanos retratados por Dorothy Iannone têm traços e formas simples, quase desenhados e pintados ingenuamente. Além de se entrelaçarem entre si, eles também se mesclam, e por vezes também se fundem, com o espaço ao qual pertencem e que é bastante trabalhado minuciosa e minimamente em seus detalhes. A artista compõe um universo único onde liga ao mesmo tempo tanto as relações subjetivas entre os corpos humanos quanto as relações objetivas que esses corpos têm com o espaço onde se situam. Em “All” (Tudo, 1967) quase não se distingue com facilidade os limites que separam a figura feminina desnuda do seu entorno. Aqui, a figura feminina é apenas um elemento adicional no universo onde se encontra e onde tudo parece estar em plena harmonia. O complexo mecanismo criado funciona perfeitamente e a figura feminina (obviamente nua e sem vergonha de se mostrar como naturalmente é) ocupa muitas posições nesse universo labiríntico engenhosamente construído e colorido.

 

All, 1967

 

Imagem: All, 1967.

 

 

Ainda que seus traços possam ser carregados de uma simplicidade estética, Dorothy Iannone milita conscientemente desde os anos de 1960 através de sua arte para desmistificar e romper com tabus sobre a sexualidade feminina, e defender a igualdade do direito ao prazer para ambos os gêneros. Por isso, as imagens humanas estão não somente desnudas, mas têm também seus órgãos sexuais explicitamente desenhados. Essa nudez absoluta trabalhada pela artista nos corpos humanos é provocativa e instiga o observador a sair de sua zona de conforto porque vai de encontro ao tradicional preceito teológico “nudez = pecado/vergonha/algo mal”, preceito esse que é analisado pelo filósofo italiano Giorgio Agamben no interessante ensaio “Desnudez”. Aqui, Agambem se baseia na história bíblica de Adão e Eva (livro de Gênesis) para ilustrar que, depois do pecado, ambos tiveram seus olhos abertos e, vendo que se encontravam desnudos, sentiram vergonha por suas nudezes.

Com isso, o desnudamento do corpo humano passou a ter uma forte carga simbólica por representar a corrupção original do homem, a sua morte, algo relacionado ao mal e do qual o homem deveria se envergonhar. Porém, o que se vê nos desenhos de Dorothy é realmente o contrário: o desnudamento de suas figuras é algo natural, do qual elas não se envergonham e não procuram reprimir ou ocultar. Suas mulheres são militantes porque se mostram como são e não fazem uso de roupas para aparentar algo ou maquiar a realidade de desigualdades onde se encontram.

 

Além desse confronto direto com as bases religiosas que uma pessoa venha a ter em relação à retratação de corpos desnudos, Dorothy ilustra de forma aberta e sem tabus a sexualidade feminina. Ela milita exaustivamente na desconstrução da associação da nudez feminina a um puro objeto de fetiche masculino ou a algo pelo qual uma mulher se deve envergonhar devido a certos costumes ou tradições sociais. Ao contrário, a mulher representada pela artista tem não somente o orgulho e a força de ser quem é, como também levanta a bandeira em defesa da sexualidade de forma igualitária de todo um gênero, como se pode ver na obra “The next great moment in History is ours” (O próximo grande momento na história é nosso, 1970).

 

The next great moment in History is ours, 1970

 

Imagem: The next great moment in History is ours, 1970.

 

 

Dorothy Iannone, que se iniciou de forma autodidata no mundo das artes em 1959, sempre retirou de suas experiências e vivências o material necessário para construir e solidificar sua particular e irrefutável linguagem artística. O extasiante e arrebatador amor que atrai as pessoas umas às outras e se concretiza na união sexual é uma temática constante em seus trabalhos. Com isso, a representação de atos sexuais possuem uma dimensão mítica na visão da artista, já que a união corporal alude também a uma união espiritual, mental e intelectual entre duas pessoas. A naturalidade da sexualidade vivenciada e defendida pela artista em sua própria vida foi incorporada ao seu trabalho. Nisso, foi extremamente marcante e registrado em toda sua trajetória laboral a relação que teve com Dieter Roth, retratado em inúmeros trabalhos da artista o longo de mais de quarenta anos de produção. O cotidiano do casal também lhe serviu para ilustrar muitos trabalhos, como em “Bei uns” (Em nossa casa, 1969). Porém, aqui há um aspecto interessante para ressaltar e analisar: Dorothy projeta a casa de ambos com alguns ambientes, como o quarto do casal (acima à esquerda ocupado por ambos), os locais de trabalho de cada um (abaixo à esquerda e centro, ocupados por cada um respectivamente), a sala (com Dieter ao telefone, centro à direita). Mas, no centro da tela, encontra-se a cozinha e nela está Dorothy, ainda que desnuda. Isso nos faz pensar que o feminismo pelo qual ela milita não é de ódio ao gênero masculino ou tampouco de ruptura, destruição e isolamento total da sociedade em que vive. Seu feminismo é igualitário, é o feminismo que oferece à mulher oportunidades de escolha; é aquele em que, se ela quiser, pode ir para a cozinha e exercer o “papel tradicional” da matriarca da família. Contudo, essa mulher tem plena consciência de seu corpo, de seu valor e não se envergonha diante deles – está aí a nudez da figura que não se oculta ou reprime dentro. Essa mulher, representada pela figura da própria Dorothy, ocupa também os demais espaços da casa que lhe conferem: o espaço de seu trabalho (e assim, sua independência econômica) e o espaço íntimo do casal (e assim, a defesa de sua sexualidade).

 

Bei uns, 1969

 

Imagem: Bei uns, 1969.

 

 

Por ilustrar explicita e naturalmente fartos e voluptuosos seios, áreas púbicas femininas em formato de corações, pênis eretos e corpos desnudos, muitas vezes em pleno ato sexual, a obra de Dorothy Iannone sempre foi alvo de censura e críticas por seu “considerado” alto teor pornográfico. Por exemplo, em uma exposição em Bern  (Suíça) em 1970 os órgãos genitais de suas ilustrações foram tapados com fitas crepes. Ou então, as figuras em madeira do trabalho “People” (Pessoas, 1966) estiveram com proibição de exibição na Alemanha e Suíça até os anos de 1990.

 

People, 1966 23-16-58

 

Imagem: People, 1966.

 

 

Por sua vez, a artista sempre combateu as censuras que suas obras receberam e nunca permitiu que os conteúdos de seus trabalhos fossem prejudicados por elas: “Eu simplesmente ignorei (a censura) e me orientei naquilo que meu coração me dizia. Conservo isso sempre ainda”, afirmou. Talvez seja essa a atitude mais provocativa e tempestuosa de Dorothy Iannone: ser fiel a si mesma, estar sempre em defesa da liberdade em todos os aspectos e áreas de sua vida, e não se deixar intimidar por nada e ninguém que não conheça e respeite a sua trajetória.

 

My caravan, 1990

 

Imagem: My caravan (Meu trailer), 1990.


Renata Martins é formada e mestra em Letras pela USP. Dedica seu tempo entre a docência de alemão e o mundo da interpretação das artes plásticas.

Imagens: todas as fotos foram tiradas pela autora do texto em visita à exposição “This sweetness outside of time. Gemälde, Objekte, Bücher 1959-2014” (Essa doçura fora do tempo. Pinturas, objetos, livros 1959-2014) na Berlinische Galerie – Museum für moderne Kunst em fevereiro de 2014.

Selo: Vanessa Kinoshita

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